
Tema: Sonho
O SONHO
HELENA E BIA ESTÃO EM UMa rua barulhenta. pode ser dentro de um ónibus, dirigindo um carro ou só andando. elas estão conversando e são INTERROMPIDAs POR barulhos diversos: buzinanas, carros passando, britadeiras ou musica alta. NA VERDADE ELAS CONTINUAM CONVERSANDO, SÓ O PÚBLICO NÃO OUVE QUE ELAS FALAM. onde está escrito barulho tem uma fala. é muito importante que sejam criadas marcas fortes e claras para cada fala porque a cena vai ser repetida e na repetição essa marcas também vão ser repetidas. QUANDO O ESQUETE COMEÇA A CONVERSA jÁ HAVIA COMEÇADO.
HELENA
Pra conseguir esse sonho não é fácil.
bia
Eu já tentei e não consegui.
helena
Se você estiver de fato com vontade, você consegue.
BIA
Mas eu estou disposta a tudo. O que eu preciso?
helena
Tem uma coisa que se você não tiver não adianta nem tentar.
bia
O que?
helena
BARULHO
BIA
Você está me dizendo que eu preciso ter saco.
HELENA
Exatamente.
BIA
Tudo bem, acho que isso eu tenho. O que mais eu preciso?
helena
BARULHO
BIA
BARULHO
helena
Você está misturando coisas erradas. É uma coisa de cada vez. Você tem que perguntar: eu quero mesmo esse sonho?
bia
Eu quero.
helena
Você tem deixar a coisa crescer. Tem muita coisa envolvida.
bia
Eu achava que ia ser mais fácil.
helena
BARULHO
BIA
Eu tentei uma vez, mas o envolvimento não foi legal. BARULHO
HELENA
Não pode ser seca assim. Por isso não deu certo.
BIA
BARULHO
HELENA
Eu disse pra você que não era sopa. Assim a coisa cresce e você perde o controle.
BIA
Mas qual é a essência?
HELENA
BARULHO
BIA
Você tem certeza que dá certo?
helena
Depende do que está no meio. Isso é que interessa. O que está por cima não tem importância. É só açúcar e canela.
BIA
Então é isso. Com isso eu consigo o meu sonho?
helena
Consegue.
a cena vai ser repetida exatamente igual. os mesmos gestos.
HELENA
Pra conseguir esse sonho não é fácil.
bia
Eu já tentei e não consegui.
helena
Se você estiver de fato com vontade, você consegue.
bia
Mas eu estou disposta a tudo. O que eu preciso?
helena
Tem uma coisa que se você não tiver não adianta nem tentar.
bia
O que?
helena
Um saco de farinha de trigo.
BIA
Você está me dizendo que eu preciso ter saco.
HELENA
Exatamente.
BIA
Tudo bem, acho que isso eu tenho. O que mais eu preciso?
helena
Açúcar, fermento, ovos – só as gemas - e baunilha. Vai misturar tudo.
BIA
Não leva as clara? Eu tentei com as claras.
helea
Você está misturando coisas erradas. E é uma coisa de cada vez. Você tem deixar crescer. Tem muita coisa envolvida. Paciência, tudo tem o seu tempo. Deixa descansar.
bia
Como assim, eu achava que ia ser mais fácil.
helena
A massa tem que descansar. Bem envolvida num pano úmido.
BIA
Eu tentei uma vez, mas o envolvimento não foi legal. Eu usei uma toalha, mas ela estava muito seca.
HELENA
Não pode ser seca assim. Por isso não deu certo.
BIA
Eu usei uma colher de sopa de fermento.
HELENA
Eu disse pra você que não era sopa. Assim a coisa cresce e você perde o controle.
BIA
Mas qual é a essência?
HELENA
Baunilha.
BIA
Você tem certeza que dá certo?
helena
Depende do que está no meio. Isso é que interessa. O que está por cima não tem importância. É só açúcar e canela.
BIA
Então é isso. Com isso eu consigo o meu sonho?
helena
Consegue.
FIM
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Tema: Primeira Vez
a roda
três homens das cavernas em volta de um objeto. musica de “assim falava zaratrusta”. som de martelos e ferramentas. grande suspense. agitação entre eles, até que roger entra em euforia.
roger
Conseguimos! Conseguimos. (REVELA O OBJETO) Criamos a roda! (MOSTRA UMA RODA DE PEDRA)
joão
Isso é incrível, a roda!
roger
Isso mesmo! A roda.
cosmo
Agora vamos sair dessa mesmice. Esse negócio de pedra lascada tava acabando comigo.
joão
Agora ninguém segura a gente. Essa roda é tudo de bom.
roger
Os cara da outra caverna tavam na maior pilha porque inventaram aquela paradinha do fogo.
cosmo
Grandes coisas.
joão
Por mim eu continuava a comer o peixe cru.
roger
Isso também não. Até quando, depois que inventaram o fogo, alguém vai comer peixe cru?
cosmo
Tem maluco pra tudo.
joão
Tudo bem, mas a roda é muito melhor!
roger
Muito melhor.
cosmo
Não tem nem comparação. Sem falar que muito mais bonita. Alguém já viu uma roda mais bonita do que essa?
joão
Não.
rober
Até porque essa é a primeira.
joão
Mesmo que não fosse. Lindona.
roger
Um espetáculo.
cosmo
Uma coisa.
joão
Eu só não entendi uma coisa. Serve pra quê?
roger
Como serve pra que! Não tá vendo? Mil coisas.
cosmo
Mil.
roger
Millhões
joão
Tudo bem, mas fala uma aí.
cosmo
Por exemplo...
joão
Por exemplo...?
roger
Sem falar no...
joão
Alôou! Pra que serve está porra!?
cosmo
Você é muito ansioso. Que ver uma coisa que vai ficar maneira, assim redondinha? Pizza.
roger
Claro, muito melhor. É só botar o queijo em cima e esperar derreter.
joão
Vai ter que pedir o fogo emprestado pros caras da outra caverna.
cosmo
Então não!
roger
Isso nunca
cosmo
Deixa rolar.
joão
Serve pra que então?
cosmo
Já sei com essa roda, dá pra fazer o mapa do mundo.
roger
Mas o mundo não é assim chatinho. O mundo é igual uma bola.
joão
Tu cismou com isso.
roger
Eu tô falando isso há um tempão.
cosmo
Essa discussão já encheu o saco. Se vamos esperar pra resolver isso vai ser uma merda. Vamos pensar noutra coisa pra fazer com a roda.
joão
Já sei! Prédio redondo. Vai ficar lindo.
roger
Só um cara tonto que nem tu pra pensar numa parada dessa. Prédio redondo.
cosmo
Onde vai arrumar móvel redondo? Essa porra não vai dar arrumação nunca.
roger
Nem daqui a um milhão de anos alguém vai querer fazer um prédio redondo.
joão
Tudo bem. Ia ser ruim pra matar barata no canto da parede.
roger
Mas pra alguma coisa essa merda tem que servir.
cosmo
Não fala assim. Estamos falando da roda. Isso vai mudar o mundo.
joão
Isso eu já sei. Eu quero saber é como?
roger
Eu já estou achando essa roda um saco.
joão
Corta logo essa porra a francesa.
cosmo
Calma! Os cara do fogo queriam desistir. Mas eles insistiram. Já pensou o mundo sem churrasco no domingão? Quando as mulhê fala que nos num serve pra nada, nos sempre podemos dizer: e o churrasco? Quem faz o melhor churrasco da tribo?
joão
Sem churrasco nos tava perdido.
cosmo
Tem que insistir.
roger
Eu tenho certeza que isso serve pra alguma coisa.
cosmo
Já sei! Roda de ouro.
joão
O que vem a ser uma Roda de ouro?
cosmo
O cara grava num negócio que já é uma rodinha, aí ele vende 300 mil copias e ganha a Roda de ouro.
roger
Mas isso muito complicado, até inventar toda essa parada de gravação vai ser o maior perrengue. Não rola...(SE TOCA) Peraí... bota essa roda em pé. Joga pra cá.
joão pega a roda e rola pra roger.
cosmo
Ela rola!
roger
É isso! A roda, roda!!
MÚSICA. ELES COMEÇAM A ROLAR A RODA UM PARA O OUTRO. PEGAM OUTRAS RODAS. CADA UM FICA RODANDO A SUA RODA PELO PALCO.
JOÃO
Stop! Tudo bem, é manero... a roda roda... tá tudo certo. Mas é aí?
roger
O mundo vai andar em cima disso. É só juntar quatro, arrumar uns bancos, um volante, um motor...
cosmo
1.0?
roger
Não, 1.8!
joão
Caraca! (T) Gasolina ou gás?
roger
Gasolina! Não vem que essa coisa de pobre!
enquanto falam vão montando um carro com as rodas, cadeiras e alguns adereços. música.
roger
Isso vai mudar o mundo. Encurtar as distâncias.
joão
Nunca mais cruzaremos as montanhas a pé!
cosmo
O mundo sem fronteiras
roger
Viver plenamente o direito de ir é vir!
joão
Um adeus para a espera do “outro lado”!
Roger
A partir desse momento, nunca mais distância será inimiga do tempo. A roda é a libertadora. Liberdade.
tempo. todos ficam parados.
JOÃO
E aí? Tá parado por quê?
roger
Tá não? Tudo parado. Maior engarrafamento.
FIM
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Tema: Mentira
LEI SECA
De Claudio Torres Gonzaga
DOIS CARAS VEM DIRIGINDO UM CARRO. ELES AVISTAM UM BLITZ DA LEI SECA. leandro está dirigindo. marcos fala pouco até eles serem parados.
LEANRO
O que é aquilo? Ih Caralho.
marcos
Que foi?
leandro
Uma blitz da Lei seca: fudeu! Tomei 3 chopes. Sem pararem a gente fudeu.
marcos
Deixa comigo.
leandro
Como deixa com você? Você nem dirigi. Eles não podem parar a gente. Faz uma cara foda aí.
marcos
Calma. Vai na minha.
leandro
Estão mandando parar. Agora já era. Perdi a carteira. Eu não posso ficar sem carteira.
o carro vai parando e um policial se aproxima.
policial
Boa noite. Os senhores podiam descer do carro?
eles descem do carro
leandro
Sabe que é seu guarda...
marcos
(COMPLETAMENTE BÊBADO DAQUI EM DIANTE) Fala o da farda! Tudo firmeza?
policial
Parece que o seu amigo está um pouco alterado.
marcos
Bsolutamente. Eu não estou alterado. Eu estou bêbado.
leandro
Marcos! Tu tá maluco? Agora fudeu geral!
policial
Como senhor?
leandro
Nada.
policial
Olha, não tem nenhuma lei que proíba dar carona para um individuo alcoolizado. Mas como os senhores estão juntos tudo indica que o senhor também ingeriu álcool.
marcos
General!
policial
Eu não sou general.
marcos
Mas deveria. General, o meu amigo não está bebu, quem está bebu sou eu.
policial
Isso eu já entendi, mas de qualquer jeito, o seu amigo vai fazer o teste do bafômetro.
leandro
Eu não tenho nenhum problema em fazer o teste, mas eu lembrei que comi um bombom com licor, um inocente, bombom com licor e isso pode aparecer. O senhor há de convir que não é justo perder a carteira por causa de um bombom.
marcos
Injustíssimo!
policial
Mas se foi só um bombom, não vai aparecer. Pode soprar.
leandro
Na verdade foi mais de um. Foram uns...
marcos
Quinze. General, foram 15!
policial
Mas com 15 bombons o senhor está alcoolizado.
leandro
Ele não sabe o que está falando. Foram 3.
policial
Três também não vai aparecer. Pode soprar.
marcos
(CANTA) É na boquinha da garrafa.
leandro
Cala a boca Marcos! É o seguinte, seu guarda, eu comi só três bombons, mas aí eu fiquei com os dentes todos pretos do chocolate.
policial
Espero que isso tenha alguma relevância.
marcos
Agora o general falou bonito.
policial
(IMPACIENTE) Eu não sou general!
leandro
Como eu estava dizendo... onde eu estava mesmo.
marcos
Com a boca na coisa preta.
leandro
Cala essa sua boca! O que deu em você? (T) Como ia dizendo eu estava com os dentes sujos e resolvi escovar e pra dar aquele trato esperto usei o Listerine, sabe aquela parada?
policial
Ainda não encontrei a relevância.
marcos
Issa! Esculacho! Da-lhe Genera!
leandro
Essa parada do Listerine acusa geral no bafômetro. Agora o senhor veja bem, não tem sentido um cidadão cumpridor dos seus deveres ser prejudicado só porque quis fazer a higiene bucal completa.
MARCOS
Vai que rola de pagar um boquete? O Leandro gosta de estar preparado.
leandro
Quer parar?
marcos
Vai que o General queira que você caia de boca no canudo dele.
leandro
Marcos!
policial
Eu vou desconsiderar isso para não prende-lo por desacato a autoridade.
leandro
Seu guarda, chega de mentirada. Na verdade eu tomei um chope. Mas eu estou sem nem alteração, eu posso fazer qualquer coisa que o senhor pedir...
marcos
Boquete...
leandro
Fica quieto! Qualquer no sentido que prove que eu não estou bêbado.
policial
Olha, a única coisa que prova que o senhor não está bêbado é o teste. Se foi só um chope não vai aparecer.
leandro
Dois.
policial
Pouca chance.
leandro
Três...
policial
Por favor. Pode soprar.
leandro
Nossa senhora protetora dos tomadores de 3 chopes me proteja.(sopra)
policial
(CONFERE) Infelizmente a quantidade de álcool no seu sangue está acima dos limites. O senhor vai ter a carteira apreendida e o seu carro vai ser rebocado.
marcos
Isso é uma injustiça. Ele não bebeu quase nada. Essa máquina está doida. Eu como bebum convicto, não aceito que esse chopista de quinta seja classificado como bêbado! Isso é uma desonra para os bêbados de verdade. Fora Sarney!
policial
O senhor não está em condições de protestar nada!
marcos
Esse bafômetro é uma fraude!
leandro
Eu posso pelo menos pedir pra alguém pegar o meu carro?
policial
A pessoa vai ter que fazer o teste do bafômetro.
marcos
Eu quero fazer o teste.
policial
O senhor não está em condições.
marcos
Quem decide isso é o bafômetro! Eu tenho o meu direito.
leandro
Deixa pra lá.
marcos
Eu não saio daqui sem fazer o teste. Se eu não fizer o teste, eu vou cantar (canta) E na boquina da garrafa... e é na boquinha do bafômetro...
policial
Está bem. Pode parar. Se eu deixar o senhor fazer o teste, o senhor vai embora?
marcos
Perfeitamente general.
policial
Pode soprar.
marcos
Eu vou provar esse bafômetro é uma fraude. (SOPRA)
policial
(CONFERINDO) Zero! O quantidade de álcool no seu sangue é zero.
marcos
Então eu posso dirigir! Onde que é a primeira?
leandro
O senhor tem que concordar comigo, que esse aparelho não está muito bem regulado.
policial
O senhor desculpe o transtorno, eu vou levar esse para o departamento técnico. É melhor o senhor dirigir do que esse bêbado.
marcos
Convicto. Bêbado convicto! Valeu general.
leandro
Dessa vez, tudo bem mas numa próxima é melhor conferir o aparelho antes. Até logo.
eles entram no carro e saem.
marcos
(completamente sóbrio) Eu não falei pra deixar comigo.
Leandro
Você estava muito bem. Até eu fiquei na dúvida.
marcos
Na próxima é melhor não beber.
leandro
Valeu General!
fim
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Tema: Cinema
TEASER
ESSE ESQUETE É PRA SER FEITO EM CIMA DO AUDIO DO TEASER DE “THE LAST AIRBENDER” ESTÁ NO YOUTUBE http://www.youtube.com/watch?v=9W1dhqc-JBs É SÓ COPIAR O AUDIO DESSE LINK. ONDE ESTÁ ESCRITO “LOCUTOR TEASER” É PRA DEIXAR A NARRAÇÃO QUE já ESTÁ NO AUDIO.
VAMOS PRECISAR DE UM NARRADOR COM VOZ TÍPICA E UM ELENCO PARA ILUSTRAR O TEXTO. PARA FUNCIONAR É PRECISO UMA LUZ RECORTADA PARA DAR UMA IDÉIA DE EDIÇÃO CINEMATOGRÁFICA. ONDE ESTÁ MARCADO “AÇÃO” É PRA CRIAR MARCAS, FOTOGRAFICAS E COM MOVIMENTO, QUE LEMBREM FILMES DE LUTA E GUERRAS. ALGUMAS VOU SUGERIR, OUTRAS FICAM EM ABERTO. É IMPORTANTE SER EM CIMA DAS VIRADAS DA TRILHA SONORA.
LOCUTOR TEASER
He is the lost of his kind...
narrador
No final os últimos caem...
atores em lados diferentes sem camisa. (dois ou quatro. sempre par) simulam alguma luta.
locutor teaser
All that remains of a once powerfull nation..
narrador
Eles estão rumando rumo ao pó e a destruição...
continuação da ilustração anterior. pode ter um clima meio matrix. falsos slow motion
locutor teaser
Somethik he’s a myth...
narrador
Ninguém recebe a um mês...
AÇÃO – PODER EXPRESSÕES DE DESESPERO.
locutor teaser
Some believe he’s the chosen one
narrador
Eles acreditam que o escolhido vai ser só um
AÇÃO.
locutor teaser
Who’ll bring balance to a Word in war
narrador
Isso não é brincadeira. É um jogo, mas não é war
AÇÃO.
locutor teaser
And some will stop at nothing to distroy him.
narrador
Todos estão dispostos a destruir um rim.
ação. UM TENTANDO MORDER O RIM DO OUTRO.
narrador
Fogo!
ação. ACENDE UM ESQUEIRO, OU FÓSFORO.
narrador
Tradição.
ação
narrador
Um lugar onde não há vencedores
ação
narrador
Uma batalha que já está perdida.
ação. ATORES GIRANDO COMO NAQUELAS CAMERAS 360º
narrador
A cada segundo o abismo está mais próximo.
ação. TODOS NA BEIRA DO PALCO
narrador
No final só restará pó.
ação
narrador
De um lado cinza. Do outro lado pó... pó de arroz.
ação. só agora eles aparecem vestindo a camisa de botafogo e fluminense.
narrador
BOTAFOGO E FLUMINENSE NA SEGUNDONA. BREVE. NUM ESTÁDIO PERTO DE VOCÊ.
FIM
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Cristina Fagundes
SEGREDOS
Virou uma mania contar tudo que nos acontece; mas as mais graves, mais sérias, essas não se conta a ninguém
FOLHA DE SÃO PAULO – COTIDIANO – DOMINGO 04 DE ABRIL DE 2010
Cristina Fagundes
Menino sentando em frente a um Mickey, fala com ele. OBS- o Mickey deve ser um boneco mesmo, eu tenho para emprestar.
MENINO: ah... vc quer dormir comigo é? Quer dormir na minha cama é? Então tá. Mas eu acho que eu acho que vou ficar acordando com você lá na minha cama. Ò, só se você ficar bem quietinho. Você vai ficar quietinho?
ENTRA A MÃE:
MÃE: Que isso meu filho? Falando com esse Mickey de novo? Hein? Eu te fiz uma pergunta.
MENINO: Não to não mamãe.
MÃE: Tava falando sim que eu ouvi. Não mente pra mim Diguinho. Que é pior!
MENINO: ...
MÃE: Quantas vezes a mamãe já falou para você não conversar mais com esse boneco? Hã?
MENINO: Foi ele que puxou assunto mamãe.
MÃE: Ele fez o quê?!
MENINO: Ele puxou assunto mamãe.
MÃE: Ah ta, o boneco puxou assunto...
MENINO: Puxou. É que ele queria conversar comigo...
MÃE: Conversar? Ele queria conversar sobre o quê?
MENINO: Ele falou que ele queria dormir na minha cama...
MÃE: Dormir na sua cama?
MENINO: È, ele falou que ta muito sozinho lá no armário e que ele quer dormir comigo.
MÃE: Ele falou isso?
MENINO: Falou.
MÃE Ai, só me faltava essa agora! Um boneco carente!
MENINO: Ele pode dormir lá na minha cama comigo?
MÃE: Lugar de boneco é no armário Rodrigo. Eu já te falei isso. Mas que coisa!
MENINO: (tempinho – o menino não resiste e insiste) O Mickey disse que se eu deixar ele dormir comigo, que ele vai me fazer um carinho...
MÃE: Um carinho?
MENINO: é. Ele vai me fazer um sexo oral.
MÃE: Sex/ Que isso meu filho?!
MENINO: Então mamãe eu não sei. O que que é um sexo oral mamãe?
MÃE: Um sexo oral?
MENINO: É mamãe? E ereção? O que que é ereção mamãe?
MÃE: Quem te falou essas coisas meu filho?!
MENINO: O Mickey, ele me disse que tava com ereção mamãe.
MÃE: Ele te falou isso?
MENINO: Falou. Ele ta doente?
MÃE: Agora chega Rodrigo.
MENINO: Ele vai morrer?
MÃE: Chega!! Eu não quero mais você perto desse boneco você ta me ouvindo? Chega dessa brincadeira. Bonecos não falam. Vc ta ouvindo? Não falam! Isso tudo é maluquice da sua cabeça, é criancice! Agora vai já pro seu quarto! Tá de castigo anda!
MENINO: Posso me despedir dele?
MÃE: Já pro quarto!
MÃE FICA ABORRECIDA PENSANDO EM QUEM PODE TER FALADO ESSAS COISAS PARA O SEU FILHO. OLHA PRO BONECO. TEMPO.
MÃE: Boneco idiota. Você vai pra lixeira! Você ta me ouvindo?! Lixeira!
BONECO: Não grita.
MÃE: Que isso?
BONECO: Não precisa gritar, eu já ouvi.
MÃE: Meu deus! Você fala! Você fala mesmo!!!
BONECO: Você devia acreditar mais no seu filho.
MÃE: Você fala! Meu deus, é um monstro, é um erê! Foi você não foi? Foi você que falou aquelas barbaridades pro meu filho? Fala! Seu Mickey tarado. Eu vou tacar fogo em você, você vai ver, não sobrar nem o enchimento.
BONECO: Se eu fosse você eu não faria isso...
MÃE: Ah, é? E eu posso saber por que não?
BONECO: Eu sei de tudo.
MÃE: Sabe o quê?
BONECO: Do seu segredo.
MÃE: Eu não tenho segredo. Nunca tive.
BONECO: (ameaçador) Eu sei o que você faz quando o seu marido sai de casa.
MÃE: Como assim?
BONECO: Você pede pizza, delivery.
MÃE: E daí? Hã? Qual o problema de comer pizza?
BONECO: Nenhum. Só que não é bem a pizza que você come.
MÃE: Do que que você ta falando?
BONECO: Todo dia, quando o seu marido sai pro trabalho você pede uma pizza. Eu sei. Eu sei de tudo.
MÃE: Sabe do quê?
BONECO: Todo dia a pizza varia mas o entregador... ah o entregador é sempre o mesmo... sempre aquele negão.
MÃE Que negão?
BONECO: você sabe muito bem...
MÃE: Para com isso, pára...
BONECO: O negão da calça de couro...
MÃE: Não! Eu não...
BONECO: Sua taradinha, sua papa-negão!
MÃE: Shhh, fala baixo, por favor...
BONECO: Vocês mulheres não valem nada!
MÃE: Não fala assim.
BONECO: As bonecas é que são fiéis.
MÃE: Claro! Como é que elas iam pode ser infiéis se elas nem tem (ia falar xoxota mas ele corta)...
BONECO: Não muda de assunto. Todo dia hein? Nesse sofá!..
MÃE: Shh, pára com isso, por favor.
BONECO: Com o negão da calça de couro...
MÃE: Shhhh! Pára. Eu faço qualquer coisa, mas não conta isso pra ninguém eu te imploro. O que você quer? Fala!
BONECO: Fica de joelho. (a mulher vai fazendo o que o Mickey manda) . Fica de joelho. Isso. Agora vem cá. Isso, chega aqui pertinho. Agora alisa a minha cabeça. Isso, agora, desce, desce mais, aí... (ela vai fazendo sem graça- ela se depara com algo duro)
MÃE: nossa!
BONECO: È uma ereção.
MÃE: Poxa...
BONECO: Agora me beija.
MÃE: O quê?
BONECO: Me beija.
ELA BEIJA ELE NA BOCHECHA RÁPIDA E TIMIDAMENTE
BONECO: Na boca.
MULHER BEIJA O MICKEY NA BOCA A PRINCÍPIO A CONTRA GOSTO MAS COMO NOS FILMES ELA ACABA SE ENTREGANDO E... GOSTA MUITO. SENTA DO LADO DELE APÓS O FIM DO BEIJO IMPACTADA.
MULHER: Nossa....
BONECO: Gostou?
MULHER: Muito... (acende um cigarro e fica fumando olhando pra ele, sorri às vezes, recém-apaixonada! Música romântica - tempo...olhos nos olhos).
BONECO: E agora? (pensam no que vão fazer com esse amor todo que surgiu? – ela tem uma idéia)
MULHER: ...Quer dormir na minha cama?
Música romântica ou música do Mickey sobe. Luz cai. Fim.
RICARDÃO TERÁ QUE INDENIZAR MARIDO TRAÍDO
Humilhado pela infidelidade conjugal, um morador da Zona Oeste resolveu pedir indenização ao Ricardão. O processo correu em segredo de justiça.
EXTRA – CAPA – 26 de março de 2010
Saia Justa de Cristina Fagundes
OFICIAL DA JUSTIÇA: Bom, antes de concluir o processo nós vamos deixá-los a sós para que vocês possam conversar e tentar chegar a um acordo. (SAI)
MARIDO MULHER E AMANTE EM SALA RESERVADA DE TRIBUNAL, TENSOS.
SILÊNCIO CONSTRANGEDOR
AMANTE: 150 mil é muito.
MARIDO: Vc acha?
AMANTE: Pro que foi, eu acho.
MARIDO: Vc acha por quê?
AMANTE: Ah, porque já acabou e além disso a gente não fez tanta coisa... pra ser caro assim.
SILÊNCIO
AMANTE (para mulher): A gente fez alguma coisa de mais? Hã? Fala pra ele.
MULHER: (numa saia justa – O COMEÇO TODO DA CENA ELA FICA NUMA SAIA JUSTA ENTRE OS DOIS – a graça vem desse constrangimento): ... não...
AMANTE: viu?
MARIDO: 150 mil. É o que você vai me pagar.
AMANTE: Fala sério. (p mulher) Vc acha que o que a gente fez vale isso tudo?
MULHER: não...
AMANTE: Ah, então vc não achou bom?
MULHER: não, achei, achei.
MARIDO: Ah, vc gostou?
MULHER: Não...
AMANTE: Por que que vc pedia mais então?
MULHER:eu?
MARIDO: Vc pedia mais?!
AMANTE: Pedia repeteco sim. Toda vez. Mesmo assim, a gente trepou o quê, Flávia? Umas 150 vezes?
MULHER: ...
MARIDO: 150 VEZES?
AMANTE: Foi mais não foi não? Fala!
MULHER:..é ... por aí...
AMANTE: então, faz as contas, 150 mil, dá o quê? 10 mil por trepada. (pra ela) Vc não acha que é injusto?
MULHER: é, pensando assim...
MARIDO: O quê? Vc acha que eu to sendo injusto?!
MULHER: não...
AMANTE: ah, então você acha que eu tenho que pagar 150 mil?
MULHER: não... (enxuga suor do rosto).
MARIDO: Vc acha que eu não devia cobrar nada dele? È isso?
MULHER: não, cobra, pode cobrar.
AMANTE: (pra mulher) Vc ta mandando ele me cobrar?
MULHER: Não...
AMANTE: Vc quer que eu pague 150 mil?
MULHER: Não...
MARIDO: Ah, vc não quer que ele me pague?
MULHER: não...
AMANTE E MARIDO JUNTOS: Você quer o que Flávia?!
MULHER: TEMPO (enxuga mais suor da testa)
AMANTE: Eu nunca gozei.
MARIDO: Oi?
AMANTE: Eu nunca gozei com ela, então ta caro. 150 mil ta caro.
MULHER: Como assim?
AMANTE: Nunca gozei! Então não acho justo pagar essa indenização. Pronto, falei.
MULHER: você fingiu?
AMANTE: Homem Tb finge minha filha,( imita gemido) oh, uh!
MULHER: você...
AMANTE: Menti, menti e daí?
MULHER: Mas eu pensei que voc/
AMANTE: Pensou errado.
MULHER: Mas e tudo aquilo que vc fez comigo?
AMANTE: Fiz por fazer.
MULHER: Como assim?
AMANTE: Sou hiperativo. Eu preciso fazer coisas. È a vida.
SILÊNCIO – ela chora decepcionada - TEMPO
AMANTE: André, escuta. Isso foi um erro, cara. Não era pra ter acontecido. A gente sempre foi camarada, eu to arrependido. Ó, nunca mais eu vou olhar pra cara dela, se ela tiver num lugar eu saio, mudo até de calçada, te juro. Agora esquece essa indenização, cara, tu sabe que eu não tenho essa grana. Vamos deixar isso pra trás. Olha, a partir de hoje, a Flávia pra mim é homem.
MARIDO: (tempo) Por que que vc ta fazendo isso ?
AMANTE: Isso o quê?
MARIDO: Não trata a minha mulher assim.
AMANTE: que que eu to fazendo?
MARIDO: Vc ta desprezando ela. Ela não merece isso.
AMANTE: Não merece? Essa mulher te chifrou.
MARIDO: Acontece.
AMANTE: 150 vezes!
MARIDO: Você nunca se apaixonou?
AMANTE: Já mas/
MARIDO: Ela se apaixonou por vc.
AMANTE: Tá mas agora/
MARIDO: A minha mulher mudou por sua causa, Afrânio, a Flávia ta diferente. Tá mais bonita. Mais disposta... Sabe há quanto tempo eu não via minha mulher feliz assim? E agora vc quer ir embora?
AMANTE: Mas eu não tenho mais nada com el.../
MARIDO: Agora você vai ficar, ta me ouvindo?
AMANTE: Ficar?
MARIDO: Isso, o nosso acordo vai ser esse. Todo dia quando eu for trabalhar você vai ficar fazendo companhia pra flávia.
AMANTE: Mas eu não gosto mais dela.
MARIDO: Cala a boca.
AMANTE: Eu to afim de outra mulher.
MARIDO: Cala a boca e escuta: a partir de hoje não tem mais mulher nenhuma na sua vida, só a Flávia.
AMANTE: Mas eu...
MARIDO: Só a Flávia ta me ouvindo?
AMANTE: Mas eu não...
MARIDO: Ela gosta de vc.
AMANTE: Eu não posso continuar fazendo isso. Eu to saindo com a irmã dela cara. Com a Cleonice!
MARIDO: (fala lenta e ameaçadoramente) Vc quer me pagar 150 mil?
AMANTE: Pagar como? Tu sabe que eu não tenho esse dinhe/...
MARIDO: Então almoça amanhã com a minha mulher.
AMANTE: Mas e o dinheir.../
MARIDO: Vc agora almoça com a Flávia todo dia, ta me ouvindo? Todo santo dia.
AMANTE: E os 150 mil?
MARIDO: 150 mil? Que 150 mil? Não lembro...
MULHER: (TEMPO) (bem lasciva) Amanhã eu vou fazer tutu...
MARIDO: Amanhã às 11 em ponto, vc vem na minha casa comer o tutu. Vc vem comer o tutu da Flávia. Entendeu Afrânio?
AMANTE: ... (ainda impactado)... Tá, o tutu da Flávia, amanhã... pode deixar... (vai saindo).
MARIDO: Espera! Tem mais uma coisa. Vc vai comer o tutu da irmã dela também.
AMANTE: O tutu de quem?
MARIDO: O tutu da Cleonice Afrânio. Você vai comer o tutu da Cleonice também.
MULHER: (numa ternura rodrigueana) Cleonice é muito só. Ela vem me ajudar amanhã.
MARIDO: E eu vou assistir. Vou assistir de camarote! Amanhã Afrânio às 11h! Compreendeu? Esse é o nosso acordo.
AMANTE: amanhã, ta, ta certo... amanhã... (sai atordoado).
MARIDO: Liga pra Cleonice.
MULHER: (susurra amorosa) Posso chamar a prima Lurdes também? (pegando o celular)
MARIDO: chama! Chama a família toda! Chama que amanhã vai ter tutu pra dar e vender! (ele com um sorriso satisfeito )sobe um tango enigmático (que relação é essa gente?) – cai a luz)
LENTES DO AMOR
A CIDADE PELAS LENTES DOS LAMBE-LAMBES
Iphan faz levantamento para localizar fotógrafos de jardim; alguns ainda resistem em praças
O GLOBO – RIO – 14 DE MARÇO
Cristina Fagundes
Sugiro que tenha uma foto de máquina lambe-lambe no telão.
Música cândida, suave.
Senhora senta num banco de praça de um jardim do Rio. Senhor já está sentado num banco ao lado. Ele come pipoca com tranqüilidade. Ela olha em volta, olha o relógio, procura algo.
SENHORA: Oi, desculpa. É que me disseram que tem um fotógrafo que trabalha aqui nesse parque.
SENHOR: Um fotógrafo?
SENHORA: é. Um lambe-lambe. Aqueles fotógrafos antigos...
SENHOR: ah é? Quem te falou isso?
SENHORA: O pipoqueiro.
SENHOR: Ah, o Elias.
SENHORA: Você conhece ele?
SENHOR: Claro o Elias é meu amigo faz tempo.
SENHORA: Engraçado.
SENHOR: O quê?
SENHORA: Eu nunca tive um amigo pipoqueiro.
SENHOR: Pois devia ter. Essa pipoca aqui foi ele que me deu. Tá ótima, vc quer?
SENHORA: Não obrigada, ah, eu queria era encontrar esse lambe-lambe.
SENHOR: (levanta-se e caminha até o banco dela) Já encontrou. Prazer. Edgar.
SENHORA: Ué, é você?
SENHOR: A seu dispor.
SENHORA: (fica desconfiada) Mas cadê a sua máquina?
SENHOR: Tá lá na administração.
SENHORA: (mais desconfiada – um fotógrafo sem máquina?) ah...
SENHOR: È que tá na minha hora de almoço.
SENHORA: Sei... (tempo) Mas como é que as pessoas vão saber que você é fotógrafo se você não traz a máquina?
SENHOR: Quem vem aqui geralmente já me conhece.
SENHORA: Mas e se vier alguém assim desavisado que nem eu e aparecer bem na hora do almoço?
SENHOR: Ah, não vem não. Difícil. So aparece cliente antigo, ainda assim cada vez menos. As pessoas acham que nem existe mais lambe-lambe no Rio.
SENHORA: É mesmo. É verdade. Eu achava que nem tinha mais....mas ia ser uma pena né? Porque eu acho uma coisa assim tão romântica...
SENHOR: (ri) o que que é romântico?
SENHORA: Ah, tirar essas fotos nessa máquina antiga, desse jeito assim artesanal... porque que é chamam de lambe-lambe hein?
SENHOR: Ah, é porque a gente lambe o dedo e passa na chapa pra sentir de que lado ta e emulsão.
SENHORA: ah... lambe-lambe...
SENHORA: Mas então, a senhora vai querer fazer uma foto?
SENHORA: (fica desperta – séria) Ah, então. É que andei pensando e... como é que eu vou dizer isso? Bom, é que eu tenho um filho que ta preso. Ele é uma pessoa muito boa e tudo, mas aconteceu isso na vida dele e... enfim...
SENHOR: Poxa, que pena. Mas ele ainda vai ficar preso muito tempo?
SENHORA: Vai. Vai ficar preso a vida inteira. Mas ele é um menino muito bom.
SENHOR: Hum rum...
SENHORA: È que ele não teve sorte na vida mesmo. Ele não fez nada pra merecer isso.
SENHOR: Mas o que que aconteceu?
SENHORA: Ele matou o pai dele.
SENHOR: Matou o pai?!
SENHORA: Mas não fui eu que mandei não. Ele fez por conta própria. E eu até entendo o gesto dele mas eu achei desnecessário.
SENHOR: Ele matou o seu marido?
SENHORA: (Concorda com a cabeça) Dez facadas. Eu ainda falei pra ele: meu filho, pra que isso agora? Precisava isso tudo? Mas você sabe como é a juventude hoje em dia, eles acham que sabem tudo.
SENHOR: Isso aconteceu quando?
SENHORA: Ah, já faz 20 anos. Mas então. O meu menino vai passar a vida toda dele naquela caixa de cimento porque me salvou do pai dele. Então, depois de visitar o meu filho hoje de manhã, eu pensei com os meu botões e eu resolvi fazer uma coisa por ele. A partir de hoje eu vou tirar fotos dos jardins mais bonitos do Rio e vou mandar para ele. O meu filho ta preso, nunca mais na vida ele vai poder pisar num jardim, mas eu vou levar os jardins até ele. Todo dia o meu filho vai acordar rodeado de flores.
SENHOR: É um gesto bonito.
SENHORA: É. As pessoas quando pensam em prisão pensam que o pior de ta preso é não poder sair de lá. Não, o pior não é a prisão do corpo, o pior é a prisão do olhar. A pessoa quando é presa perde o direito de olhar o mundo. Nunca mais meu filho vai poder olhar um jardim, nunca mais o meu filho vai poder olhar o mundo... Eu demorei a me dar conta disso... só percebi hoje quando ele me perguntou de que cor tinha sido o por do sol ontem. (TEMPO) Então eu queria pedir para o senhor visitar esses jardins comigo e me ajudar a tirar essas fotos. Você pode fazer isso por mim? Eu pago.
SENHOR: Claro. Faço com o maior prazer. Eu conheço muitos jardins bonitos aqui no Rio... mas eu acho melhor a senhora conhecer o meu trabalho antes... olha aqui, eu tenho algumas fotos aqui comigo. (abre um álbum onde se vêem fotos de várias famílias –sugiro projeção das fotos no telão) . Olha essa aqui...
SENHORA: (vendo uma foto de familia) Nossa, que família bonita... deve ser bom ter uma família né? Eu não tenho ninguém... (se emociona). Desculpa.
SENHOR: (fica com pena e decide relevar um segredo) Olha, já que a gente ta se abrindo, eu vou contar uma coisa pra senhora. (faz suspense) Muitas das fotos que eu tiro de família não são de família.
SENHORA: como assim?
SENHOR: São fachada. Não são uma família de verdade.
SENHORA: Ué, são o que então?
SENHOR: São pessoas contratas.
SENHORA: Hã?...
SENHORA: Ás vezes é uma solteirona ou é um cara que veio de outro país e quer mostrar para os pais que ta bem, que conseguiu vencer na vida, formar uma família...
SENHORA: Então é tudo mentira?
SENHORA: é. Olha aqui, essa foto mesma, ta vendo essa mulher e essas crianças? São contratadas.
SENHORA: O quê?
SENHOR: Eu paguei.
SENHORA: Como assim?! Essa mulher não é a esposa dele?
SENHOR: Ela é a jardineira aqui do parque. A Suelly. E ele... ele é gay.
SENHORA: Ele é gay?
SENHOR: Agora, tá vendo esse homem aqui (mostrando outra foto)?
SENHORA: To, que que tem ele?
SENHOR: Olha bem.
SENHORA: Deixa eu botar o meu óculos... Meu Deus! É o pipoqueiro! Essa é a família dele?
SENHOR: Não, ele foi contratado pra ser o marido dessa mulher nessa foto.
SENHORA: Então ... ela não tem família?
SENHORA: Não, ela não tem tempo. Ela é uma alta executiva. (com seriedade) É triste dizer, mas hoje em dia, com essa correria, só quem tem família é funcionário público.
SENHORA: Meu deus, então é tudo armação! Mas porque essas pessoas fazem isso?
SENHOR: Ninguém quer a solidão. E um retrato da família na sala de estar sempre dá credibilidade.
SENHORA: É verdade! O meu médico tem uma foto dessa no consultório dele!
SENHOR: Viu só?
SENHORA: (se dando conta) E eu só confio nele por causa dessa foto. ..
SENHOR: Engraçado né? Mas é isso mesmo, o tempo vai passando e chega uma hora que o seu sucesso na vida começa a ser medido não mais pelo que você quer conquistar, mas pelo que você já conquistou. As pessoas começam a te medir pelo que você já fez, pelo que você já conseguiu... Aí, se você não conseguiu construir uma boa carreira, fazer uma família, comprar uma casa, então tá na hora de fazer uma fotografia. Essas pessoas me procuram pra isso, pra se livrarem dessa opressão. Eu uso a fotografia como um instrumento de libertação.
SENHORA: (com admiração) O senhor é um artista.
SENHOR: (digno) Obrigado.
SENHORA: Mas então todas essas famílias são falsas?
SENHOR: Não, as mais antigas são de famílias de verdade, olha essa aqui que bonita. É de verdade. (mostra)
SENHORA: Mas e vc? Não tem nenhuma foto aqui da sua família?
SENHOR: Não. Da minha família não.
SENHORA: Mas por quê?
SENHOR: (hesita, tímido)...Eu não tenho família...
SENHORA: Você não tem família?
SENHOR: (Sem graça) Eu passei a minha vida toda viajando pelo mundo para tirar fotos e o tempo foi passando...
SENHORA: Então você também é só?
SENHOR: Sou.
SENHORA: Ah, mas isso não vai ficar assim, não senhor. Vamos fazer o seguinte, antes da gente tirar as fotos dos jardins a gente vai dar um pulo na prisão então. Eu vou te apresentar pro meu filho e a gente vai fazer uma foto bem bonita com você.
SENHOR: O seu filho?
SENHORA: Ele e eu. Nós dois vamos tirar uma foto com você, assim quando você for mostrar seu trabalho para os seus clientes, o senhor vai poder mostrar também a sua família pra eles.
SENHOR: (tocado) Vocês fariam isso por mim?
SENHORA: Claro! O meu filho é um bom menino, ele exagerou nas facadas mas é um bom menino, você vai adorar conhecer. Mas agora me conta, onde é que tem um jardim bem bonito nessa cidade pra gente começar?
SENHOR: (LUZ VAI CAINDO – MÚSICA BONITA – A CENA ACABA COMO SE ELES FOSSEM CONVERSAR AINDA POR UM BOM TEMPO – a última frase já nem é pra se ouvir) Tem um parque lá em vargem grande... você vai ver que beleza... eu conheço o Rio com a palma da minha mão.../
fim
Manchete
PAIS DEIXAM FILHOS SOZINHOS PARA IR A FORRÓ
As cinco crianças, entre 1 e 9 anos foram encontradas por policiais
Jornal O Globo – O País – 08 de março de 2010
SAPATILHAS DE AÇO – DE CRISTINA FAGUNDES
MULHER: Você ta vendo? Eu falei pra vc dar o lexotan para elas antes de sair. Eu num falei?
HOMEM: Eu ia dar, eu juro que eu ia, só que eu não encontrei...
MULHER: Burro! Não sabe procurar nada! Agora a gente vai perder a guarda das nossas filhas! Ta vendo só o que você fez?
HOMEM: Mas eu não fiz nada!
MULHER: Exatamente. Se você tivesse dado o lexotan como a gente combinou elas iam ter ficado dormindo e ninguém ia descobrir que a gente foi pro forró...
HOMEM: ah ta, tudo eu. Tudo eu! E por que que sou sempre eu que tenho que dar lexotan pra elas? E vc que esqueceu elas lá na feira de São Cristovão?
MULHER: Eu? Quando?
HOMEM: No dia do Trio Forrozão.
MULHER: Ué, as crianças foram com a gente?
HOMEM: Acho que sim. Eram elas não eram?
MULHER: Ah Aloísio, como é que eu vou saber? Vc sabe muito bem que em forro eu só olho pra baixo, eu só olho pro pé das pessoas que é pra aprender os passos.
HOMEM: Ué mas eu também. Mas eu acho que a gente eram elas sim Gorete, que a gente até comprou uma sandalinha de couro pra mais velha...
MULHER: Que mais velha?
HOMEM: A Gonzagona.
MULHER: Quem?
HOMEM: Ih Gorete, deixa pra lá... olha a juíza aí.
ENTRA JUÍZA DE MENORES.
JUÍZA: Boa Tarde. Muito bem pelo que consta aqui no relatório vocês abandonaram as suas filhas para ir a um forró não é isso?
HOMEM: Abandonar, abandonar a gente não abandonou não...
MULHER: A gente esqueceu...
JUÍZA: Não foi o que disse a vizinha da casa em frente, olha aqui, de acordo com a senhora Aparecida Mexerica/
VIZINHA: (Surge evocando o depoimento prestado – é uma fofoqueira) Aqueles dois vivem largando as crianças pelos cantos para ir pro forró! Todo dia é isso. È forró, forró e forró!
JUÍZA: Eu devo informar aos dois que se ficar realmente comprovando o abandono de menores, que vocês vão perder a guarda das suas filhas.
MULHER: Não, pelo amor de deus Juíza! As nossas filhas não!
VIZINHA: È forro de segunda a segunda! No último São João eles esqueceram a menorzinha dentro de uma zabumba, a pobre teve que voltar a pé lá de Caruarú!
HOMEM: Excelência, a senhora não pode tirar as nossas filhas da gente!
VIZINHA: Eles nem sabem o nome das filhas! È só forró forró e forró!
JUÍZA: Dona Gorete, a senhora poderia me falar um pouco de suas filhas?
MULHER: Ah... (procura na mente) a Elba, adora um xote, é... e tem outra que ta aprendendo a falar... ela fica xaxa, xaxado, tão linda! Qual é o nome dessa Aloísio?
HOMEM: Nome? (começa a cantar a música do Fala Mansas) Escrevi seu nome na areia...
JUÍZA: Qual o nome dela?
HOMEM: ... o sangue que corre em mim sai da tua veia...
MULHER: (aflita- corta ele) fala, Aloísio, qual é mesmo o nome dela coração?
HOMEM: (canta) Oi Tum Tum, Bate coração, oi Tum coração pode bater...
JUÍZA: Vocês não sabem o nome dela?
HOMEM: (canta) Oi Tum Tum Bate Coração...
JUÍZA: Seu Aloísio pare de cantar e responda à minha pergunta. Como se chama a sua filha?
HOMEM: Oi Tum Tum Bate Coração.
JUÍZA: Oi?
HOMEM: (CORRIGE) Não, Oi Tum Tum Bate Coração.
MULHER: Mas a senhora pode chamar ela de Tum Tum também que ela atende.
JUÍZA: ... Hum, me parece que o forró tem uma importância realmente exrpessiva na vida de vocês.
HOMEM: (CANTA) Você endoideceu meu coração, endoideceu.../
JUÍZA: O que é isso agora?
HOMEM: É o nome da nossa filha do meio.
JUÍZA: Você endoideceu meu coração?
HOMEM: Isso.
JUÍZA: Hum... entendo... olha eu não vejo problemas em voces gostarem tanto assim de uma dança, porém desde que isso não se sobreponha às suas responsabilidades como pais. Segundo Aparecida Mexerica../
VIZINHA: Eles tacam lexotan nas meninas só pra ir no forró. É forró, forró e forró!
MULHER: Excelência, isso não é verdade, por que que a gente faria isso?
VIZINHA: E não é só isso não! Toda quarta-feira ele dá lexotan pra Gorete e vai sozinho pro forró!
MULHER: Que isso Aloísio! Você vai no forró sem mim?!
HOMEM: Desculpa Gorete mas eu preciso.
MULHER: Mas por quê Aloísio?
HOMEM: Eu tenho que treinar novos passos e com você não dá Gorete.
MULHER: Como assim treinar novos passos? Meus passos não te agradam mais?
HOMEM: Gorete, se eu não inovar a gente fica pra trás. E aí como é que vai ser nos festivais?
MULHER: Você dança xote com outras mulheres Aloísio?
HOMEM: Xote não Gorete, claro que não, é só forró,e daqueles bem rápidos. E sem bate-coxa. Xote coladinho é só com você minha flor.
MULHER: E xaxado?
HOMEM: Só com você.
JUÍZA: Não foi o que a sua vizinha disse. Consta aqui que/
VIZINHA: Outro dia eu bem vi ele dançando xote com a prima da Gorete.
MULHER: O quê? Você dançou xote com a Júlia?
VIZINHA: E ela tava com aquela sapatilha prateada da Gorete no pé que eu bem vi!
MULHER: Com a minha sapatilha de aço?!
VIZINHA: E fez até um furo no dedão esquerdo.
MULHER: Ela furou a minha sapatilha de aço?
MULHER: Pra você ver como eles dançaram...
MULHER: Filho da puta!! (torce o braço dele)
HOMEM: Não esse braço não. Esse é o braço da condução!
MULHER: Por isso mesmo!
JUÍZA: Ordem na casa! (ela solta ele)
HOMEM: Eu não ia fazer isso pretinha, eu juro que não ia, mas é que começou a tocar um forró no rádio e eu não agüentei...
VIZINHA: É forró, forró e forró!!!
MULHER: Viciado!!!
HOMEM: Não fala assim...
MULHER: Viciado sim! Viciado! Tarado! Você é o tarado do forró!!
VIZINHA: è forró, forró e forró!
MULHER: Você gosta mais do forró do que de mim! Não é? Fala pra mim, você gosta mais dele não é verdade? Fala!
HOMEM: São amores diferentes...
MULHER: Chega! Eu não quero mais isso pra mim... nos temos que parar com isso Aloísio. Esse vício ta acabando com a gente...
HOMEM: calma gorete...
MULHER: A gente não tem mais vida Aloísio.
VIZINHA: É forró! Forró! Forró!
MULHER: (divide a preocupação) Ás vezes eu me levanto de noite e fico dançando sozinha.
HOMEM: Isso é normal.
MULHER: durante 3 horas.
HOMEM: é...
MULHER: Nós deixamos nossos amigos todos para trás Aloísio, os nossos programas...
HOMEM: Também não é assim.
MULHER: Há quanto tempo a gente não vai num samba Aloísio? Numa micareta? Num pagode. Me diz?
VIZINHA: É forró! Forró! Forró!
MULHER: eu não agüento mais...Aloísio, a gente tem que parar com isso agora.
HOMEM: Mas parar por que?
MULHER: Porque eu to com o pé cheio de bolha!
HOMEM: Poxa mas logo agora? Eu acabei de aprender uma girada nova, em sentido anti-horário!
MULHER: Ai, me ensina?! (se dá conta que ta tentada e corta) Acabou Aloísio.
MULHER: Mas e o Festival de Itaúnas?
MULHER: O Festival de itaú... Acabou.
HOMEM: Mas e a matinê de hoje?
MULHER: A matinê?! Ai, a matin/ Acabou. Olha pra mim Aloísio, acabou. Acabou.
TEMPO – ELES SE ABRAÇAM EMOCIONADOS.
MULHER: Excelência, a gente vai parar. Nunca mais a gente vai dançar forró. Nem um passinho! Eu juro! E gente também nunca mais vai dar lexotan pras meninas. Nem dormonide nem Dramim. Nunca mais. A senhora tem a minha palavra.
HOMEM: É juíza. A gente ta fora do forró! A gente entendeu que não dá mais não. Ninguém aqui quer ser viciado não. Isso não é vida! Não é vida. A gente agora vai cuidar da nossa saúde e da nossa família que é isso que importa.
MULHER: É, agora nós vamos cuidar das nossas meninas.
TEMPO
JUIZA: Bom, eu to vendo que vocês estão dispostos a mudar então eu vou permitir que vocês continuem com a guarda das crianças. Mas vocês vão ter que ser fortes porque a qualquer sinal de fraqueza,de recaída nós vamos considerar você inaptos para manter uma família. Vocês entenderam bem? Bom, agora vocês podem ir, as suas filhas estão esperando por vocês na sala ao lado.
HOMEM: Ah, as meninas tão aí?
JUIZA: Sim, elas estão nessa salinha ao lado. Elas vão voltar pra casa com vocês.
MULHER: Graças a Deus!
JUIZA: Agora vocês podem ir buscá-las.
ELES LEVANTAM PRA IR MAS COMEÇA A TOCAR UM FORRO DELICIOSO.
HOMEM: Que isso?
JUÍZA: Forró, algum problema?
MULHER: (perturbada) Não, não, problema nenhum...
JUÍZA: Podem ir buscá-las.
Eles ficam tentados com a música e divididos olhando para sala onde a juíza aponta que as meninas estão.
JUIZA: Vocês não vão buscá-las?
HOMEM: Buscar?...
JUÍZA: Suas filhas estão esperando!
MULHER: ... As minhas filhas?...
JÚIZA: As suas filhas!
MULHER: (embriagada pela música) Que filhas Aloísio?
HOMEM: Que música meu amor! Olha só que música!
MULHER: To ouvindo, Aloísio, to ouvindo!
A DANÇA É MAIS FORTE QUE ELES, QUE SE DESCONTROLAM NUMA DANÇA FRENÉTICA – PODEM ATÉ ESTAR COM UMA ROUPA DE FORRÓ POR DENTRO E ABRIR A DE FORA, SEI LÁ, EXPLODEM NA ENTREGA AO FORRÓ)
VIZINHA: É forró! Forró e Forro! (luz vai caindo enquanto eles dançam freneticamente, música só cai depois já no escuro). Fim
______________________________
TEMA: Sonho
MÚSICA SUAVE E BONITA
Música suave e bonita, cena clássica de família, a dona de casa de avental entrando e saindo de cena colocando a mesa para o jantar, 3 lugares, o filho brincando com 3 carrinhos. Ela gosta do filho. Ela leva uma tigela de salada para colocar na mesa mas pára, de repente, no meio da ação. Silêncio, fica pensativa olhando a salada, não se mexe. Depois de um tempo, o filho estranha, olha a mãe parada, fala.
JOÃO: que foi mamãe? (ela não responde) Mamãe? (ela vai lentamente até a mesa e coloca a tigela de comida lá, limpa as mãos no avental lentamente e tira vai tirando o avental e dobrando, ri sozinha, solta os cabelos lentamente em silêncio, somente aí parece se dar conta do filho – se volta pra ele e diz)
ADELMINHA: Mamãe vai embora. Mamãe vai embora. Hoje. Agora. Ta? Mamãe vai embora. Quando seu pai chegar, pede pra ele passar o bife pra você. So falta passar o bife, já ta tudo pronto. (tempo – ela olha a casa como uma estranha) só falta passar o bife. (pra si) Passar o bife é fácil, difícil é casamento.
JOÃO: Papai já ta chegando?
ADELIMINHA: Vai chegar mas só daqui a pouco. Escuta João, eu acho que o papai hoje vai ficar nervoso, muito nervoso, mas isso passa viu?
JOÃO: Papai vai xingar?
ADELMINHA: Vai vai xingar muito, vai falar um monte de palavrão...
JOÃO: Que nem quando ele assiste futebol?
ADELMINHA: Pior, dessa vez vai ser pior. Ele vai falar mal da mamãe, mas você não acredita não, meu filho, é porque ele ta nervoso. Escuta aqui João, não importa o que o seu pai disser, o que a sua avó disser, o que o porteiro disser, eu te amo viu meu filho? muito muito muito. E escuta, amor de mãe é maior que a própria mãe, é maior que o universo é...
JOÃO: é maior que o campo de futebol lá da escola?
ADELIMINHA: É. É maior. E é eterno, amor de mãe é pra sempre. Então, não importa onde a mamãe vá, você vai ta sempre junto comigo. (aponta a cabeça e o coração) Aqui ó, e aqui. Não esquece isso ta?
JOÃO: Ta. Mas você vai pra onde mamãe?
ADELMINHA: Vou ser feliz meu filho. Sabe, todo mundo tem um sonho e sonho é uma coisa muito forte, sonho é que nem comida pra quem tem fome. Mais cedo ou mais tarde você tem que resolver. Senão você murcha, vai diminuindo, diminuindo até sumir.
JOÃO: Eu também tenho um sonho mamãe?
ADELIMNHA: Claro que tem, todo mundo tem, só que vc ainda não sabe qual é, mas um dia, você vai saber e aí meu filho, você vai ter que realizar, porque senão sua vida não vai ter mais graça. Ou você vai querer ser uma daquelas pessoas café com leite que nem sabem porque se levantam de manhã? Que só vão da casa pro trabalho e do trabalho pra casa, sem um sonho, sem nem saber porquê?
JOÃO: Você ta falando da tia Selminha?
ADELMINHA: Isso, da tia Selminha e de metade da humanidade, você quer ser assim?
JOÃO: Não né mãe.
ADELMINHA: Pois é, eu também não. Então eu tenho que ir embora.
JOÃO: Mas qual é o seu sonho mamãe?
ADELINHA: (ela pensa em como explicar e vai até os brinquedos dele) Você ta vendo esse carrinho João? É o seu preferido não é? Você adora brincar com ele não é? Adora, mas, você também gosta desse aqui e desse outro não gosta? Esse aqui é mais leve, já esse aqui faz um barulhinho gostoso quando roda né?. Mas e se você só pudesse brincar com esse? Você ia sentir falta dos outros dois não ia? Ia até enjoar de brincar com ele não ia?
JOÃO: Ia ficar de saco cheio!
ADELINHA: Então meu filho, comigo também é assim. Eu amo o seu pai, mas eu também quero conhecer outros carrinhos. Olha, a vida é muito curta viu? E é uma só. Se na minha única vida, que ainda por cima é curta, eu só conhecer o seu pai, eu não vou saber nunca como é que é brincar com os outros carrinhos. E se for legal? Até hoje eu só brinquei com o seu pai, ta na hora de eu experimentar outros carrinhos. Você ta entendendo o que eu to te dizendo meu filho?
JOÃO: Claro mamãe, cada carrinho é bom de um jeito né?
ADELINHA: Isso. Você entendeu. Agora, pro seu pai vai ser mais difícil entender. E sabe por quê? È que inventaram esse negócio chamado casamento que é como se fosse um contrato que diz, imagina só, que você só pode brincar com um único carrinho de cada vez.
JOÃO: Esse casamento é um saco mamãe! Por que que ele não deixa você brincar com o papai e com os outros carrinhos também?
ADELINHA: Porque ele é mau. O casamento é mau, aprende isso. Eu não consigo entender porque toda mulher quer ser casar. As mulheres nesse assunto são meio dementes. Mas eu não, eu sempre soube que o casamento é que nem circo do interior, quem ta fora quer entrar mas quem ta dentro quer sair. Só que a minha mãe era muito tradicional.
JOÃO: A vovó?
ADELINHA: Tradicionalíssima. Fazia questão que eu me cassasse de véu e grinalda: “a mulher só é decente na Igreja!” Ela dizia e me olhava de um jeito... Entrei na igreja como um boi entra num matadouro. Eu não caminhava na nave, eu me arrastava, porque eu sentia, a cada passo que eu dava, o meu sonho ficando nublado, por trás daquele tule branco. Eu também fui ficando nublada. Fui uma noiva-zumbi, letárgica, fantasmagórica. Naquele dia, naquele vestido branco apertado eu sufoquei meu sonho de ter vários carrinhos e nesses 10 anos nunca mais pensei nisso. Até hoje, quando eu olhei pra essa salada. Que coisa! São tantas folhas diferentes, cada uma de uma cor, e tão cheias de vida, e tão misturadas, molhadas...
JOÃO: Mas será que ainda dá tempo mamãe?
ADELINHA: O quê?
JOÃO: Ainda dá tempo de você conhecer outros carrinhos?
ADELINHA: Dá meu filho, se deus quiser ainda dá. Mas agora tem uma coisa importante que eu preciso explicar pra você antes de ir embora. O meu sonho não é tão simples assim. Ele é um sonho um pouco mais difícil de entender. È o seguinte, no meu sonho, os carrinhos, eles pagam para ficar comigo. Eu só topo brincar com os carrinhos que me pagam.
JOÃO: Mas e se eles não quiserem pagar mamãe, você fica sozinha?
ADELINHA: Ah, meu filho, sempre vai ter um que vai pagar. Ah vai. (tomada) Desde pequena que eu sonho com isso, eu parada numa esquina, toda bonita, numa esquina, os homens passando, os carrinhos, me olhando, eles me olham de cima a baixo, sentem o meu perfume, um perfume doce, almiscarado e me perguntam quanto custa , e aí eu sorrio maliciosa e dou meu preço e então eles pagam, meu filho, eles pagam só para estar comigo, só para desfrutar da minha companhia por uns poucos minutos. Só irei com quem me pagar! A partir de hoje, só pagando entende?
JOÃO: Mas é caro mamãe?
ADELINHA: Não, é barato, serei uma companhia barata, faço questão. Sou marxista. Mesmo assim vão me acusar de cobrar, de vender minha companhia, mas todo mundo não vende idéias, não vende suor, não vende a alma? Cada um vende o que pode ué. Mas você meu filho, você eu faço questão, você eu preciso, você vai me entender não vai? Uma mulher tem a obrigação de ser feliz você não acha?
JOÃO: Eu acho mamãe. Mas e se o papai quiser te ver?
ADELINHA: Agora só pagando. Mas escuta, meu filho, ta ficando tarde, eu tenho mesmo que ir.
JOÃO: Mas você não vai levar nenhuma roupa mamãe?
ADELINHA: Pra quê? Não quero roupa nenhuma me sufocando mais, nunca mais. Olha escova os dentes antes de dormir hein?
JOÃO: Você vai voltar?
ADELINHA: Passar bife é fácil, você vai ver. Difícil é casamento. Adeus. (música)
FIM
_______________________________
TEMA: Primeira vez
Visita da Morte – de Cristina Fagundes
Mulher no quarto, sentada na cama, na frente dela, a Morte, sentada numa cadeira, observando-a. Tempo. A mulher está estatelada olhando a Morte, não ousa fazer um movimento.
Morte: Você vai ficar assim, parada?
Mulher: Hum?!
Morte: Vai ficar me olhando?
Mulher: Desculpa, mas é que é a primeira vez que eu vejo a morte assim de frente.
Morte: E a última. (tempinho – cai na gargalhada) Brincadeira.
Mulher: Eu vou morrer?
Morte: Claro. Todo mundo vai.
Mulher: Você veio me buscar? Mas eu nem to doente. (espirra)
Morte: Viu? Isso é início de gripe suína.
Mulher: Ah, não, pelo amor de deus! Me leva pro hospital agora!
Morte: Se eu te levar não vai ser pro hospital. Quer mesmo que eu te leve?
Mulher: Me levar? Ah, não, não, pode me deixar aqui... não precisa me levar não... se bem que eu ando tão deprimida depois que o Miguel acabou comigo, até que não ia ser uma má idéia ir com você...
Morte: Raras vezes eu vejo alguém querendo a minha companhia.
Mulher: Olha, querer, querer, assim de verdade, eu não quero mesmo não, mas é que tá tudo tão difícil, ta tudo cinza depois que meu namoro acabou. E essa tristeza não passa! Será que eu vou ficar sofrendo assim até morrer?
Morte: Escuta uma coisa, você não vai morrer, não agora. Você vai ficar doente, muito doente, mas vai sobreviver. Então eu não vim aqui te buscar. Não dessa vez.
Mulher: Que que você veio fazer aqui então?
Morte: Vim trazer a gripe suína pra você. Eu preciso dessa gripe pra que você entenda certas coisas.
Mulher: Entender o quê?
Morte: Que essa cama ta ocupando um espaço grande demais na sua vida. Que já é curta.
Mulher: Curta? Ué, mas você acabou de me dizer que eu não vou morrer agora...
Morte: Agora não, mas você não vai viver assim... até ficar velhinha, se é que você me entende.
Mulher: Eu não vou ficar velhinha? Eu vou morrer quando?
Morte: Falar a idade certa seria uma indiscrição da minha parte, você não acha? Bom, digamos que antes dos 60. Sinto muito. Você vai morrer jovem. Por isso eu trouxe essa gripe pra você.
Mulher: Não to entendendo nada.
Morte: Todo mundo que sobrevive a uma doença grave passa a dar mais valor à vida. È ou não é? Com a morte por perto, a vida grita. Pois bem, de uns anos pra cá eu desenvolvi esse método, o método DGDV: doença grave didática para a vida. Eu visito as pessoas que vão viver menos de 60 anos e trago uma doença grave, aí vocês ficam doentes, acham que vão morrer e imediatamente passam a aproveitar melhor as suas vidas.
Mulher: Mas, gente, era só me falar: ei, garota, hello! Levanta dessa cama! Ò o sol lá fora!
Morte: Tss, Tss. Adoecer faz parte do método. E é didático. E eu gosto. Agora conta pra mim: qual é o mel da vida?
Mulher: Como assim?
Morte: O que que você gosta de fazer?
Mulher: Ah, sei lá, eu ando tão pra baixo, (pensa um pouco) ah, eu gosto... eu gosto do imponderável, sabe? Dessa coisa de acordar de manhã e não saber o que vai acontecer - (medo súbito) eu não vou morrer de morte anunciada não, né? Não, é que uma vez eu li um livro sobre um alpinista, uma história real, um desses caras que resolve subir o Everest. O cara subiu mas teve uma tempestade de gelo e ele despencou lá de cima e ficou pendurado no alto de um precipício, num lugar impossível de resgate. Então ele já sabia que ia morrer, estava consciente disso, ele não tinha mais água nem comida e tava muito frio.
Morte: Ah, eu me lembro disso...
Mulher: Então? Sabe o que ele fez? Ele pegou o celular e ligou para a família. Ele foi se despedindo de um a um até acabar a bateria do celular. Eu não quero morrer assim! Não quero ir me despedindo até acabar a bateria!
Morte: Ta, mas antes disso, você pensa em se casar, ter filhos?
Mulher: Ta difícil. O homem da minha vida era o Miguel, mas ele resolveu se casar com outra... legal né? (tempo) ah, tem um cara aí, ele é inteligente, sabe? È cheio de vida! Mas já é casado.
Morte: O Bruno é casado mas vai se separar assim que vocês começarem a namorar. E vocês vão começar a namorar hoje. Assim que eu for embora, você vai ligar para ele. Vai contar que ta gripada, ele vai te fazer rir e vai cuidar de você. O Bruno sempre gostou de você. Vai te enviar filmes do Wood Allen para te divertir, além de bilhetes espirituosos e aí quando você ficar boa, daqui há 10 dias, vocês vão sair pra passear na Lagoa, vão perceber que estão apaixonados, vão namorar, se casar e ser muito felizes. Vão ter um filho.
Mulher: Eu vou ter um filho? Mas como se o Bruno é estéril?
Morte: Ele não é estéril. A mulher dele é que é e põe a culpa nele, aliás, além de você, essa mentira vai ser o outro grande motivo da separação deles. Ah, vocês vão ter uma filha também. Daqui há 3 anos. Melissa.
Mulher: Melissa! É o nome da minha avó!
Morte: Vai ser uma homenagem, ela vai nascer com os mesmos olhos azuis-turquesa dela. Sua avó vai ter falecido uma semana antes disso.
Mulher: Que horror! Como é que você pôde fazer isso com a vovó?!
Morte: Vou levá-la dormindo. Ela nem vai sentir.
Mulher: Que bom/não, quer dizer/Mas como é que você pode saber disso tudo? Isso ainda nem aconteceu.
Morte: Tá escrito. Nos prontuários. Tudo anotado, minha filha, meu método é cientifico, eu nunca falho.
Mulher: Ai, mas eu vou ficar tendo um filho atrás do outro assim, que nem uma coelha? E o meu MBA?
Morte: MBA pra quê?
Mulher: Ué! Eu prometi ao meu pai, além disso ser atriz é muito incerto.
Morte: Incerta é a vida. Não perde tempo estudando o que não lhe diz nada, estuda shakeaspeare, Moliére, faz canto, faz dança, ri, anda de pedalinho, sonha, que a vida é curta Fabiana.
Mulher: Mas eu tenho que estudar se eu quiser...
Morte: Estuda a tua alma e vê o que ela ta pedindo. Agora eu tenho que ir, ainda tenho um monte de gente pra visitar na África hoje.
Mulher: Você visita todo mundo que vai morrer cedo?
Morte: Não, só os jovens deprimidos, mas vocês agora são tantos, to ficando com estafa.
Mulher: Você não vai me dizer mesmo quando é que eu vou morrer?
Morte: Você quer mesmo saber isso? Sua vida vai virar uma contagem regressiva. Aliás, de que ia adiantar eu te contar isso? Quando eu cruzar aquela porta ali, você não vai mais se lembrar de nada dessa nossa conversa. E é melhor assim. Você vai esquecer de tudo, mas vai começar a sentir uma vontade louca de viver e vai achar que foi por causa da gripe. Eis o método DGDV. (vai saindo)
Mulher: Ei! Então quer dizer que o Bruno sempre gostou de mim?
Morte: (confirma) Hum rum.
Mulher: E eu vou voltar a ser feliz?
Morte: Hum rum. A tristeza assusta, mas na verdade, ela é quase sempre mais tênue e breve do que parece. Vai por mim, disso eu entendo.
Mulher: Bom, obrigada pelos toques.
Morte: De nada. Liga pra ele. Tchau.
Mulher: A gente ainda vai voltar a se ver, né?
Morte: Ta com pressa?
Mulher: Não, não! de jeito nenhum... não mais....tchau, thau mesmo. (a Morte sai e a mulher sorri e adormece, mas acorda no mesmo instante, com uma vontade súbita – liga para alguém) Alô, Bruno? (ele fala alguma besteira – ela ri) Você reconheceu a minha voz! Desculpa eu te ligar assim, mas é que me deu uma vontade de falar com você... (música suave, ela rindo, luz caindo).
FIM
__________________________
TEMA: Mentira
Como a Vida É
Homem sentado em mesa de bar, toma algo e aguarda ansioso por alguém. Mulher entra no bar o vê e leva um susto, vira de costas para ele. Ele não a vê, entretido em arrumar uma flor margarida que está em seu bolso. Os dois estão com roupas de cor igual, tipo toda verde ou toda vermelha dos pés à cabeça, e ela segura uma margarina da mão, para facilitar o reconhecimento. Ele a vê de costas e a chama:
ELE: Lídia?...
ELA: (ainda de costas) Arthur?
ELE: (sorri, solicito, se levantando e puxando a cadeira)
Oi, você não quer sentar? (ela suspira fundo e se vira de frente pra ele – é a vez dele ficar surpreso).
ELE: Márcia!...
ELA: Bruno...
OS DOIS FALAM AO MESMO TEMPO
ELA: Então era você?
ELE: Caramba!
ELA: Gente...
SE SENTAM EM SILÊNCIO, SE OLHANDO AINDA SOB O CHOQUE. TEMPO.
ELA: Gente....que isso...
ELE: Então na verdade...
ELA: ... era você...
ELA: Gente, essas coisas só acontecem comigo. (lembra) E você ainda me disse que era bonito!
ELE: Ué mas eu sou. Não sou não?
ELA: (observa e nega) hum, hum.
ELE: Não?
ELA: Nunca foi.
ELE: Eu não sou bonito? (brinca penteando o cabelo de outro jeito, faz graça) E agora?
ELA: (ri dele) Ai, Bruno, só você. Aí, a margarida.
ELE: (mostra a dele) quer trocar?
OS DOIS RIEM
ELA: E só eu mesma pra marcar um encontro com meu próprio irmão.
ELE: Eu nunca pensei que você freqüentasse sala de bate-papo. Que engraçado.
ELA: Pois é, pra você vê como tá difícil encontrar alguém legal...
ELE: É, mas você devia tomar mais cuidado, antes de sair marcando um encontro assim, ta cheio de maluco na internet. E seu fosse um maluco? Um psicopata?
ELA: È, mas você não é maluco, você é o meu irmão, professor de física, certinho, casado/(se dá conta). Aliás, a Fernanda sabe que você fica marcando encontro com mulher pela internet?
ELE: Ah, eu não fico marcando encontro...
ELA: Ah, não? E isso aqui é o quê?
ELE: Ah, Márcia...
ELA: Você ia chifrar a Fernanda, Bruno? Com uma mulher linda em casa você fica catando mulher na internet? Pra quê?
ELE: ...
ELA: Eu sempre pensei que você fosse apaixonado pela Fernanda. Mas é tudo mentira então. O seu casamento é um mentira.
ELE: Não, não é mentira. Eu sou apaixonado pela Fernanda.
ELA: Então pra quê esses encontros? Que esse não é o primeiro, Bruno, pelo jeito como você fez as coisas, esse lance das margaridas, vocês já fez isso outras vezes.
ELE: Já fiz sim. Pronto. Você quer mesmo saber? Eu saio com outras mulheres sim. Eu saio, e daí?
ELA: Bruno, não fala isso, pelo amor de deus, que toda vez que alguém me fala que não tem homem fiel, eu digo: mentira, tem sim, tem sim que meu irmão é casado há 10 anos e ainda é apaixonado pela mulher dele. Nunca traiu a Fernanda, nunca traiu.
ELE: Márcia, você não sabe o que é ta casado com a mesma pessoa por 10 anos. As coisas mudam, o desejo diminui.
ELA: Mas não dá pra trabalhar isso? Não dá pra cultivar a relação?
ELE: A gente tenta, todo mundo tenta fazer isso, mas o desejo vai indo embora e aí quando você vê, você tem aquela mulher linda do teu lado, que você ama e que é tua companheira mas você não sente mais tesão por ela. É cruel mas é isso o que acontece.
ELA: Como assim não sente mais tesão? A Fernanda é linda. É um mulherão. Até eu quase sinto tesão por ela.
ELE: A Fernanda é linda sim, Márcia, mas mesmo que ela fosse a mulher mais linda do mundo, depois de 10 anos, ali ó, todo dia, todo dia, com a mesma mulher, não tem santo que agüente. Você começa a bater ponto. E bater ponto em sexo é o fim da linha pra um homem. È a morte.
ELA: Nossa Bruno, que exagero!
ELE: Sabe aquele fogo das primeiras trepadas? Esquece, se você for fiel mesmo, você nunca mais vai saber o que é isso.
ELA: Como não?
ELE: Uma milésima trepada, nunca vai ser igual a uma primeira trepada. È um fato.
ELA: Mas vai ser um puta trepada, você já conhece a pessoa, já sabe do que ela gosta...
ELE: Então, é justamente isso, você já sabe tudo. Então nem precisa mais trepar, você já sabe.
ELA: Mas então me explica como é que as pessoas passam 40, 50 anos casadas?
ELE: Abrindo mão do sexo.
ELA: Mas eles continuam transando.
ELE: Mas não é mais o sexo em tudo o que ele pode dar, sexo pra valer, é uma coisa diferente. Amor, talvez.
ELA: Mas deve ter um jeito de resgatar esse fogo do início.
ELE: Aí é que entram esses encontros pela internet.
ELA: Deve ter outro jeito.
ELE: Tem. Se separar. Conhecer outra pessoa e começar tudo de novo.
ELA: O sexo não pode ser assim incompatível com o casamento.
ELE: Pra começar, o casamento nunca teve associado ao amor ou ao sexo, de uns tempos pra cá é que a gente inventou isso. Ao longo da história o casamento sempre teve uma função muito mais política, de unir reinados, de evitar guerras, de criar sociedades. E era melhor assim, porque antes você não tinha essa obrigação de viver eternamente de pau duro pela mesma mulher.
ELA: que isso Bruno!
ELE: É a ditadura do pau duro!
ELA: Bruno, você virou um homem frio.
ELE: Realista.
ELA: Um iceberg.
ELE: Não dá pra ter o mesmo tesão pela mesma pessoa durante 10 anos, Márcia. Põe isso na tua cabeça.
ELA: Então você não gosta mais da Fernanda.
ELE: Gosto. Gosto sim. Mas sexo é outra coisa. Por isso que eu saio com outras mulheres, eu sinto falta de sexo. É isso. Sexo. Sabe sexo? Agora isso não tem nada a ver com o meu casamento, eu amo a Fernanda. Sou apaixonado por ela.
ELA: (suspira) Ai, Bruno, então o seu casamento é um mentira...
ELE: Se você quer pensar assim...
ELA: Agora já nem sei se eu quero mais conhecer alguém. Depois dessas coisas todas que você me falou, acho que eu não tava preparada pra ouvir/...
ELE: (cortando ela) Mas é bom ficar, é bom ficar, porque isso é a vida, Márcia. Como ela é. Agora deixa eu ir que eu ainda tenho que pegar o bolo e a Fernanda já deve ta me esperando. Taqui minha parte, ó. Tchau! ( se levanta e vai saindo) Você vai passar lá em casa mais tarde?
ELA: Claro, eu vou, Bruno, eu vou sim. Afinal não é todo dia que se comemoram 10 anos de casamento né?
FIM
____________________________
TEMA: Cinema
Cinevida
Em meio a uma discussão:
Mulher: Como é que você foi fazer isso?! Quantas vezes a mamãe falou que não podia dormir assistindo à TV? Não pode dormir assistindo à TV!!
Homem: Mas eu não ia dormir.
Mulher: Desde pequeno que você sabe disso. Ninguém na família pode!
Homem: Mas eu não ia dormir, eu juro, deve ter sido o anti-alérgico que eu tomei.
Mulher: Você se lembra do que aconteceu com a Tia Selminha quando ela dormiu vendo Contatos Imediatos?
Homem: Não começa.
Mulher: Ela sumiu, ninguém nunca mais viu. Foi pro espaço.
Homem: Isso ninguém sabe. Você ta supondo.
Mulher: Ah, é? E o Vovô Noberto que dormiu vendo Titanic e acordou afogado?
Homem: Dá pra parar?
Mulher: Você ta cansado de saber do nosso problema com os filmes!
Homem: Eu não fiz por querer eu juro.
Mulher: A mamãe ta sabendo?
Homem: Eu ainda não contei pra ninguém.
Mulher: (numa súbita urgência) O que que você tava assistindo?
Homem: Um filme.
Mulher: Que filme?
Homem: Minority Report.
Mulher: É isso! É por isso que você ta tendo essas visões. Você ta fazendo o que os precogs fazem no filme, você ta adivinhando os crimes que vão acontecer no futuro.
Homem: Você já viu esse filme?
Mulher: Não mas me contaram a historia. O que que acontece com os Pregocs no final?
Homem: Não sei, eu dormi. Ai, ta acontecendo de novo: tem um cara... ele ta ta armado... Ele ta assaltando um banco, em Copacabana... É o meu banco! Ai, eu tenho que avisar a minha gerente!
Mulher: Carlos, pára! Pára e presta atenção. Desde quando isso ta acontecendo? Essas visões?
Homem: Desde que eu dormi vendo o filme, há uma semana. Mas elas tão ficando cada vez mais freqüentes. Hoje eu já vi 7 subornos e 12 desvios de verba. Isso só no Congresso. Mas tem outros crimes/
Mulher: (cortando ele)Ai meu Deus! Sua cinesensibilidade de prever crimes ta se mostrando muito forte! E com você morando no Rio de Janeiro, essas visões só tendem a aumentar.
Homem: E agora?
Mulher: Agora fudeu! A gente tem que fazer alguma coisa!
Homem: Fazer o quê? A cinesensibilidade não tem reversão! Depois que o processo começa não tem mais volta.
Mulher: Mas deve ter um jeito. Você não consegue ver nenhuma saída?
Homem: Não. Eu só vejo crimes. (tempo) Peraí, eu tive uma idéia! E se a gente cruzasse a Grande Linha?
Mulher: Ficou maluco? Você sabe que é proibido fazer isso. Ninguém nunca cruzou a Grande Linha.
Homem: Mas isso hoje vai mudar.
Mulher: Carlos, não faz isso! A gente jurou...
Homem: Hoje eu vou saber o que tem por trás da grande linha.
Mulher: Carlos! É perigoso! Volta aqui! Carlos! (ele vai até a beira do palco até a grande linha e sente como se fosse uma parede invisível que o impede de prosseguir, ele fica tentando,mas não há como cruzar essa parede.)
Homem: (pensativo) Não dá pra passar...
Mulher: (verificando também) É mesmo...
Homem: Por isso que é proibido vir até aqui. Pra gente não descobrir isso.
Mulher: O que será que tem lá do outro lado? Que esquisito. Parece até coisa de filme.
Homem: É isso! Por isso que a nossa família é tão estranha! Por isso essas coisas todas sem sentido. Como é que eu não descobri isso antes? Isso tudo é um filme. A gente vive dentro de um filme Mônica!
Mulher: Um filme...?
Homem: É, é por isso que a gente não consegue passar pro lado de lá. A Grande Linha é o que nos separa da realidade.
Mulher: Mas e essas suas visões?
Homem: Elas fazem parte do filme. A gente deve tá num filme de mistério.
Mulher: Deve tá mesmo, porque eu não to entendendo nada.
Homem: Presta atenção: Em todo filme tem sempre um herói que ta levando sua vidinha normal até que alguma coisa acontece e ele é obrigado a agir. É o que os roteiristas chamam de ponto de virada. Essas minhas visões são o ponto de virada do nosso filme.
Mulher: E você é o herói?
Homem: É, e agora eu vou tenho que agir pras fazer as coisas voltarem ao normal, entende? É assim que acontece nos filmes.
Mulher: Então eu sou a coadjuvante?
Homem: A gente tem que descobrir como reverter esse processo das visões. Mônica, você ta me ouvindo?
Mulher: Poxa, mas por que logo a coadjuvante?
Homem: Porque é assim que o filme foi feito, merda!
Mulher: Quem disse? E se a gente tiver dentro de um filme que ainda não foi feito? E se a gente tiver dentro de um roteiro, por exemplo?
Homem: Qual a diferença?
Mulher: É que num roteiro tudo ainda pode mudar. Até os personagens.
Homem: Hum... é uma hipótese.
Mulher: Nesse caso eu poderia virar a heroína por exemplo.
Homem: Mas heroína por que, se fui eu que tive as visões e não você? Se fosse você a heroína era para ter acontecido alguma coisa com você e não comigo.
Mulher: Mas aconteceu. Você começou a ter visões, me chamou e eu tive que agir.
Homem: Agir? Você não fez nada, Mônica. Fui eu que descobri tudo: o segredo da grande linha, que estamos dentro de um filme... E você? O que que você fez?
Mulher: Descobri que nós estamos num roteiro e não num filme.
Homem: Grande coisa. E daí?
Mulher: E daí que isso me deu ferramentas para mudar a história.
Homem: Como assim?
Mulher: Quando um roteiro tá sendo escrito, às vezes uma personagem vai ficando tão forte, mais tão forte, que passa a ditar o que o autor escreve. Ela adquiri vida própria e passa a apontar seus próprios caminhos, chegando a mudar completamente a história.
Homem: Do que você está falando?
Mulher: Do que ta acontecendo exatamente agora. Eu to mudando a história. O nosso filme agora não é mais de mistério. Agora ele é de terror.
Homem: De terror?
Mulher: É. È um filme B. Bem trash. É a historia de uma irmã que mata o irmão só para virar a personagem principal do filme.
Homem: (se sentindo mal). Perái, o que você está fazendo? Pára com isso Mônica! Ahh!!!
(ele cai morto)
Mulher: The end.
UM HOMEM E UMA MULHER. SÃO GORDOS. ESTÃO PARADOS OLHANDO FIXAMENTE PARA UM SONHO DE PADARIA NO CENTRO DO PALCO. SE OLHAM.
HOMEM
Eu vou comer, foda-se!
MULHER
(IMPEDINDO-O) Não vai. É isso que ele quer.
HOMEM
Mas é isso que eu quero também. Tá todo mundo de acordo.
MULHER
Você acha que você quer, mas na verdade você não quer, mesmo achando que quer.
HOMEM
Que?
MULHER
O seu cérebro é que quer!
HOMEM
Porra, ele é a parte mais inteligente do meu corpo, ele deve ter razão.
MULHER
Não tem! Olha pra você, você é gordo!
HOMEM
Você também!
MULHER
Mas você não tá me vendo que nem um bicho querendo esse sonho.
HOMEM
Entendi... Você quer que eu desista do sonho pra você comer o sonho sozinho!
MULHER
Eu não quero sonho nenhum! Eu por mim jogava esse sonho fora. (VAI ATÉ O SONHO)
HOMEM
Não! Não faz isso!
MULHER
A gente não vai comer isso mesmo!
HOMEM
Mas tem gente passando fome no mundo. Enquanto você tá falando essas coisas, tem gente no Camboja que tá comendo terra.
MULHER
Você nem sabe onde fica o Camboja.
HOMEM
Mas isso não significa que não tenha gente lá nesse momento comendo terra.
MULHER
Em qualquer lugar do mundo tem gente nesse momento comendo terra.
HOMEM
É por isso mesmo que a gente tem que comer esse sonho.
MULHER
A gente não, você.
HOMEM
Tudo bem. (VEM EM DIREÇÃO AO SONHO)
MULHER
Vamos dar esse sonho.
HOMEM
Dar?
MULHER
A gente dá pra alguém no Camboja.
HOMEM
(INDO EM DIREÇÃO AO SONHO) Eu quero que o Camboja se foda...
MULHER
Vamos dar pra alguém que precise dele.
HOMEM
Ninguém precisa dum sonho.
MULHER
Então é melhor jogar ele... (AMEAÇA JOGAR NA PLATÉIA)
HOMEM
Não! Tá bom, você venceu. O que você quer por esse sonho?
MULHER
Como assim?
HOMEM
(TIRA DINHEIRO DO BOLSO) Quanto? É só me falar.
MULHER
Eu não quero nada, eu só quero que você não coma o sonho.
HOMEM
Mas por que você quer tanto que eu não coma esse sonho?
MULHER
Porque se você comer, eu vou querer comer.
HOMEM
Então você quer comer o sonho!
MULHER
Claro que eu quero comer o sonho! Quem não quer comer um sonho? Todo mundo quer comer um sonho.
HOMEM
Então vamos comer nós dois!
MULHER
A gente não pode! É isso que ele quer que a gente faça! Ele quer que a gente coma e desista!
HOMEM
Ele deve ter um motivo pra isso.
MULHER
Você quer ser gordo?
HOMEM
Não.
MULHER
Você quer ser flácido?
HOMEM
Não.
MULHER
Você quer ser aquele banhudo escroto que na praia espreme espinha das costas?
HOMEM
Agora eu não sei aonde você tá querendo chegar.
MULHER
Tudo isso está dentro desse sonho. Esse creme é a sua gordura. O açúcar, o pão de ló quentinho, o doce de leite...
HOMEM
Assim fica foda.
MULHER
Olha só. O sonho é só o começo. Eu tive uma professora de química muito gorda, imensa, tipo obesa, tipo picada de abelha. Ela me disse que uma noite, bateu uma fominha nela de doce. Ela resolveu bater no liquidificador um pote de 2 litros de sorvete napolitano kibon com uma caixa de bis e um pote de calda de caramelo. Tomou tudo. Foi parar no hospital pra fazer lavagem estomacal.
HOMEM
Caralho... (APÓS PAUSA) Porra, agora me deu vontade de comer sorvete...
MULHER
Presta atenção rapaz, você pode ser ela ontem.
HOMEM
Mas ela foi feliz. Por alguns segundos ela foi feliz. Por alguns minutos ela foi muito feliz. Claro que ela deve ter tirado o morango que ninguém come. Mas ela comeu o maior milk shake do mundo! E ela fez isso rindo.
MULHER
Mas ela foi pro hospital!
HOMEM
Isso é uma outra história.
MULHER
Não, é a mesma!
HOMEM
Então eu também vou te contar uma história. A história de um cara que queria muito comer um…
MULHER
Você vai contar a sua história?
HOMEM
Não… Tá, eu ia contar a minha história, mas foda-se, eu quero comer esse sonho e acabou. Você não manda em mim, eu nunca te vi na minha vida, eu te conheço faz sete dias e você não tem o direito de me dizer o que eu devo comer ou não…
MULHER
Então tá, come! Você é um fraco.
HOMEM
Eu sou um gordo!
MULHER
Mas antes de comer você vai se olhar nesse espelho e dizer pra você mesmo: Eu sou um fraco!
HOMEM
Eu não vou falar nada.
MULHER
Fala!
HOMEM
Eu não vou…
MULHER
Fala! Agora!
HOMEM
(SE OLHA NO ESPELHO) Eu… sou… um fraco.
MULHER
Eu tenho pena de você. Esse sonho é de plastico.
HOMEM
Que?
MULHER
Eles botaram esse sonho aqui pra ver quem era você de verdade.
HOMEM
De plastico?
MULHER
Seu idiota!
HOMEM
Mas ele parecia tão de verdade.
MULHER
A única coisa de verdade aqui é a sua pança!
HOMEM
Eu não acredito! Ele é de plastico?
MULHER
Não, to brincando, é de verdade, mas você não vai comer.
HOMEM
Me deixa lamber.
MULHER
Que?
HOMEM
Deixa eu só dar uma lambida pra sentir o gosto.
MULHER
A gente ainda tá falando do sonho, né?
HOMEM
Eu quero ter o gusto de açúcar cristalizado na minha boca.
MULHER
Lamber é comer.
HOMEM
Então me dá outra opção.
MULHER
(TIRA DO BOLSO UM PLÁSTICO)
HOMEM
O que é isso?
MULHER
Banana desidratada…
HOMEM
Eu pedi outra opção, não veneno pra rato.
MULHER
Banana desidratada é muito saudável e faz bem pro intestino.
HOMEM
Posso pelo menos passar a banana no creminho.
MULHER
Você tem alma de gordo. Você quer o sonho? Você vai ter o sonho. Mas vai comer ele no chão. (DEIXA SONHO CAIR NO CHÃO)
HOMEM
(AVANÇA NO SONHO NO CHÃO. COMEÇA A COMER)
MULHER
Nããããão!
DEUS
(VOZ EM OFF) O que é que tá acontecendo?
MULHER
Por favor, eu posso explicar.
DEUS
Silêncio, Eva! Adão, o que você está fazendo?
HOMEM
(FALA DE BOCA CHEIA) Nada. (PAUSA) To comendo um negócio aqui.
DEUS
(VOZ EM OFF) Eu expulso vocês do Paraíso!
EVA
Mas meu Deus, eu também?
DEUS
Os dois!
ADÃO
Por favor, poupe nos da vergonha! Seremos pra sempre lembrados como aqueles que não resistiram a tentação de um sonho.
DEUS
Eu falo que foi uma maçã!
ADÀO
TROVÃO. BLACK OUT.
______________________________
Tema: Pimeira Vez
LEMBRA?
IARA
Com quem que foi sua primeira vez?
LETÍCIA
Minha primeira vez? Do que de...?
IARA
De comer paçoca... De transar. Com quem que foi?
LETÍCIA
Ih, faz tanto tempo.
IARA
Sim, mas com quem que foi?
LETÍCIA
Nem lembro.
IARA
Quem?
LETÍCIA
Não lembro.
IARA
Como assim não lembra?
LETÍCIA
Não lembro.
IARA
Você não lembra com quem que foi a sua primeira vez?
LETÍCIA
Não, eu não lembro com quem que foi a minha primeira vez.
IARA
Você não ta querendo me falar.
LETÍCIA
Ué, eu não sei, eu não lembro.
IARA
Mas como é que não lembra? Você já deu?
LETÍCIA
Não, que eu dei, eu dei. Eu dei muito, dar eu to dando... Quer dizer, não com essa veemência que eu to te falando. Mas dei.
IARA
Mas você não lembra nem como foi?
LETÍCIA
Não lembro.
IARA
Você tava bêbada?
LETÍCIA
Imagina. Claro que não.
IARA
Mas que coisa, hein?
LETÍCIA
Normal não lembrar, ué. Eu lembro da segunda.
IARA
Mas aonde você tava, quantos anos você tinha...
LETÍCIA
Eu acho que foi na praia.
IARA
Mas trepou na praia e não lembra?
LETÍCIA
Fala baixo, Iara.
IARA
É que porra, na praia é maneiro. O cara devia ter pau pequeno.
LETÍCIA
Tinha nada pau pequeno.
IARA
Ué, não lembra, como é que sabe que o cara não tinha pau pequeno?
LETÍCIA
Eu ia lembrar se o cara tivesse pau pequeno.
IARA
Agora você lembra de todos os caras que tem pau pequeno?
LETÍCIA
Ian, Fábio, Selton, Cláudio, Vinícius...
IARA
Você tem dado azar, hein amiga?
LETÍCIA
Normal...
IARA
Mas foi com quantos anos?
LETÍCIA
Não lembro.
IARA
Não lembra nem quando foi? Não é possível, um ser peludo, e salivante enfia um pedaço de cano em você, dói pra caralho, você sangra e esse momento você esqueceu?
LETÍCIA
A sua primeira é que não deve ter sido realmente muito boa.
IARA
A minha foi ótima. Marcelo, pau médio, lá em casa, meus pais viajando...
LETÍCIA
Pera aí, você falou um negócio agora que eu acho que...
IARA
Viajando?
LETÍCIA
Não.
IARA
Pau médio?
LETÍCIA
Não
IARA
Marcelo? Porra amiga, você sabia que eu gostava do Marcelo...
LETÍCIA
Não, que Marcelo.
IARA
Eu falei isso, amiga, Marcelo, pau médio, lá em casa, meus pais viajando...
LETÍCIA
Pois é...
IARA
Pera aí, fecha o olho.
LETÍCIA
Pra que?
IARA
Fecha. Vou te hipnotizar. Pra você lembrar.
LETÍCIA
Eu não acredito nessas coisas...
IARA
Fecha. Respira. Isso, relaxa o corpo. Pensa no mar...
LETÍCIA
Qual mar?
IARA
Qualquer mar.
LETÍCIA
Pensei.
IARA
Não, não fala nada. Pensa no movimento do mar. Indo e vindo. Isso. Agora vamos falar da sua primeira relação sexual.
LETÍCIA
Eu to vendo um cara.
IARA
Quem é esse cara?
LETÍCIA
Não sei direito. Não sei nem se é ele.
IARA
Chega perto dele.
LETÍCIA
Ele tá pelado.
IARA
Então é ele.
LETÍCIA
Eu to pelada também. Eu to com medo.
IARA
Quantos anos você tem?
LETÍCIA
Eu to sangrando.
IARA
Isso. É esse dia.
LETÍCIA
Eu to sangrando muito.
IARA
Chega perto dele.
LETÍCIA
Eu não quero.
IARA
Por que?
LETÍCIA
Eu quero ir embora.
IARA
Calma, fica mais um pouco.
LETÍCIA
To com muita dor.
IARA
Qual o nome dele?
LETÍCIA
Murilo.
IARA
Murilo?
LETÍCIA
É o meu quarto. Minha mãe serviu o jantar.
IARA
Você consegue ver o rosto dele?
LETÍCIA
Eu sou muito pequena. Eu tenho oito anos e meu pai não devia estar fazendo isso comigo.
IARA
Que?
LETÍCIA
Ele falou preu tomar banho que ele traz a lasanha no quarto.
IARA
Amiga, do que você ta falando?
LETÍCIA
Ele ta me beijando. (ACORDA DO TRANSE) E aí, o que aconteceu?
IARA
Você ta bem?
LETÍCIA
To ótima. Eu falei alguma coisa?
IARA
(SILÊNCIO) Você? Não. Não falou nada.
LETÍCIA
Tá com uma cara.
IARA
É porque não deu certo.
LETÍCIA
Eu falei que isso de hipnose não existe. Mas eu acho que se eu me esforçar eu me lembro...
IARA
Não, besteira, esquece isso. Era uma brincadeira idiota minha. Bom eu tenho que ir. Depois a gente se fala, tá?
LETÍCIA
Pera aí, fica mais um pouco.
IARA
Eu preciso ir mesmo. (ABRAÇA A FORTE POR UM TEMPO)
LETÍCIA
Tem certeza, minha mãe fez jantar.
MÃE (OFF)
Letícia, a lasanha vai esfriar!
LETÍCIA
Ai, que saco, odeio lasanha. Beijo, amiga.
IARA
Beijo. (VAI SAINDO)
LETÍCIA
Amiga!
IARA
Oi?
LETÍCIA
Não conta pra ninguém, tá?
IARA
Tá.
LETÍCIA
Te amo. (SAI)
TE PEGUEI
ALBERTO – (PASSANDO MAL) Elias, me ajuda aqui.
ELIAS - O que foi Alberto?
ALBERTO - To meio tonto. To sentindo uma pontada no coração.
ELIAS - Que é isso Alberto, senta aqui. Descansa um pouco, vou pegar uma água para você.
ALBERTO - Não, Elias. Agora de nada mais adianta. Acho que...
ELIAS - Pelo amor de Deus Alberto, acorda. Socorro!!! Polícia, ambulância!!!
ALBERTO - Elias... obrigado por tudo.
ELIAS - Não!!! Continua comigo, não morre. Albertoooooo!!!
ALBERTO – (COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO) Oi.
ELIAS - Alberto?
ALBERTO - Te peguei!!! Hahahahaha. É brincadeira. Você precisava ver sua cara de desespero...
ELIAS - Alberto?
ALBERTO - Parecia que você tinha visto um fantasma. (PERCEBE ELIAS PASSANDO MAL) Nossa Elias, você está branco.
ELIAS – (PASSANDO MAL) Eu não consigo respirar.
ALBERTO - Elias?
ELIAS - Socorro. Eu to sufocando, me ajuda.
ALBERTO - Elias, para com isso.
ELIAS - So...corro...
ALBERTO - Para de brincadeira Elias.
ELIAS - Am... bulância...
ALBERTO - Isso é sério, Elias? Nossa senhora, desculpe, eu não achei que...
ELIAS - Am...bulância.
ALBERTO - Socorro!!! Fica aqui que eu vou chamar socorro.
ELIAS - Não vai.
ALBERTO - Como não, você ta morrendo.
ELIAS - Adeus amigo.
ALBERTO - Nãaaaaaaaaao!!!
ELIAS – (COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO) Não o que?
ALBERTO - Elias?
ELIAS - Hahahaha, quem te pegou fui eu. Hahahaha. Quem ri por último ri melhor.
ALBERTO - Eu não acredito Elias.
ELIAS - Bem feito, isso é pra você aprender.
ALBERTO – (BRAVO) Você é idiota? Para que fazer isso?
ELIAS - Ué, você fez antes exatamente o mesmo...
ALBERTO - Que brincadeira estúpida. Só podia ter vindo de você mesmo.
ELIAS - Como assim?
ALBERTO - Que coisa sem graça. Puta coisa babaca.
ELIAS - Olha, você fez a mesma coisa comigo e eu não dei esse ataque.
ALBERTO - Para que ficar se justificando, diz que errou e pronto. Assume que a brincadeira foi idiota.
ELIAS - Mas...
ALBERTO - Então tá bom Elias. Engole esse teu orgulho merda. E um dia a gente se vê por aí.
ELIAS – Calma, cara, desculpa, eu não sabia que você ia ficar assim. Desculpa.
ALBERTO - Te peguei!!! Hahahaha, caiu de novo, caiu de novo.
ELIAS - Eu não acredito que eu acreditei.
ALBERTO – Pode acreditar!
ELIAS - Mas eu sou muito idiota mesmo.
ALBERTO - É!
ELIAS - Mas como eu sou burro.
ALBERTO - Haha.
ELIAS - Por que que eu sempre caio em todas? Que trouxa.
ALBERTO - Ai ai, essa foi boa.
ELIAS - Eu devia ter percebido, mas a verdade é que isso é um reflexo da vida, eu nunca percebo nada. Eu sou sempre o idiota que nunca percebe nada. Que raiva.
ALBERTO – Para de besteira, Elias.
ELIAS – Besteira é o caralho, eu sou um merda.
ALBERTO - Você acha que eu vou acreditar nessa... Até parece Elias. Cuidado com a mesinha Elias.
ELIAS - Saco!
ALBERTO - Elias, não tem graça... cuidado com o vaso.
ELIAS - Um grande idiota que eu sou, sempre enganado.
ALBERTO - Para Elias, eu não vou cair de novo. Se controla Elias. Para que esta faca, Elias.
ELIAS - É sempre assim: eu sendo feito de trouxa.
ALBERTO - Elias, vem pra cá, vem. Não tem mais graça agora.
ELIAS - O grande imbecil de todos: EU.
ALBERTO - Olha a janela Elias.
ELIAS - Quer saber, não agüento mais.
ALBERTO - Desce daí Elias. Que brincadeira mais idiota.
ELIAS - É exatamente isso que eu sou, um grande idiota. Tchau Alberto. (PULA DA JANELA)
ALBERTO - Elias não pula... Eliaaaaaas.....
ELIAS - Te pegueeeeeeeeeeeeeei. (BARULHO DELE CAINDO EM CIMA DE UMA CARRO. ALARME SOA AO FUNDO)
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Larissa Câmara
PAI HERÓI de Larissa Câmara
MANCHETE: PATERNIDADE EM TRANSFORMAÇÃO
Falta compreensão sobre o papel do pai, que mudou mais do que o da mãe.
O GLOBO – CIÊNCIA/SAÚDE – domingo 28 de março de 2010
Personagens:
- FILHO: deve ser interpretado por um ator. Homem estilo “bofe”. No fim do texto descobriremos que o nome do filho é Ana Carolina, mas esse detalhe não deve afetar a masculinidade presente no personagem.
- PAI: deve ser interpretado por um homem vestido de mulher. De preferência de salto alto, mas sem grandes afetações.
Pai e filho estão em casa
FILHO COMO SE ESTIVESSE DIANTE DO ESPELHO se ARRUMANDO. AJEITA O NÓ DA GRAVATA COMO SE QUISESSE SE ENFORCAR
PAI (FALA DA COXIA SEM APARECER): Bebê você viu meu casaco de pele? Bebê... Fala comigo! (FILHO REAGE COM GESTO) Fala! (REAÇÃO DE RAIVA DO FILHO. PAI ENTRA EM CENA) Calma! Respira, respira fundo, enche o peito, agora solte o ar. (FILHO OBEDECE OS COMANDOS).
FILHO (RAIVOSO. SOLTA O AR E RELAXA): Ah, melhorei! (PAUSA) Sabe o que é eu acho melhor você não ir assim...
PAI (CONCORDANDO SIMPÄTICO): Eu também acho... Exagerei, né? Vou trocar o salto por uma sandalinha baixa. (VAI SAIR. FILHO INTERROMPE)
FILHO (SEM SABER COMO DIZER): Na verdade eu acho melhor você não ir. Ainda não é o momento.
PAI (tenso): Como assim não é o momento? É sua festa de noivado! Eu faço questão de ir.
FILHO (sem saber como dizer): Ai...
PAI (fofo): O que é que foi?
FILHO (sem saber como dizer): É uma família muito conservadora. Acho que não vão entender e...
PAI (fofo): Fale a verdade.
FILHO (sem saber como dizer, fala de um jeito inaudível): Eu tenho vergonha de você, papai.
PAI: Oi?
FILHO: Eu tenho vergonha de você, papai.
PAI : Como é? Vergonha de mim. (pausa. Faz dramalhão. Bate no próprio rosto) Ai, meu Deus. Eu não mereço! Eu não aprendo! Eu passei por cima de tanta coisa pra ouvir isso... O papel do homem, do pai na família mudou e eu me adaptei... Eu me esforcei para ser um bom pai... de terapia até depilação com cera quente eu fiz por sua causa. Ingrato!
FILHO: Não fale assim.
PAI: Falo. Agora eu vou falar tudo. Eu sei que você prefere a sua mãe, aquela desclassificada que saiu pelas estradas e te abandonou.
FILHO: Você dobre a língua antes de falar da minha mãe. Mamãe é uma estrela, uma rainha – Sula Miranda, A Rainha dos caminhoneiros.
PAI: Rainha da sucata. Isso sim! Vou gritar a verdade pro prédio todo ouvir.
FILHO: Pare com isso! Você não vai estragar o meu noivado. Que vergonha! Que vexame! Que Coisa feia Ai, ai, ai!
PAI: Cale a boca, Ana Carolina! Cale a boca. Ou deixo você de castigo. Vai ficar uma semana sem tocar violão e bater pandeiro com suas coleguinhas. (pausa) Vergonha sinto eu das declarações que você faz na imprensa (pega jornal)
FILHO: (fala as declarações que fez na imprensa) Sou de Minas uma cidade bacana. Tem uma média de 10 mulheres para cada moça. (pausa) Me amarro em comida mineira, sou doida em pimenta dedo de moça.
PAI: É bebê, você puxou a sua mãe. Ana Carolina, a rainha das caminhoneiras. (pausa) Quando você quis sair com suas amigas pra cantar MPB de bar em bar, eu aceitei. Quando você falou que sua missão era a mesma de Zélia Duncan e Martinália – mostrar a graça e feminilidade na música, eu aceitei. (pausa) E você vem recriminar o meu modelito, ô coração.
FILHO: (abraça o pai) Desculpe papai! Estou com os nervos à flor da pele por causa do noivado.
PAI: Relaxa, vai dar tudo certo, meu bebê!
FILHO: Aí tô bem apessoado? Tô pura sedução?
PAI: Tá lindo! Ai, Ana Carolina como você cresceu rápido já é quase um homenzinho!
FILHO: Ah, papai, você é meu herói! (pausa emotiva) Você anda tão bem de salto alto!
PAI: (olha o relógio) Vamos que sua noiva Maria Gadú destesta esperar.
FILHO: Vamos.
PAI: (Volta) Ah, ia me esquecendo. Não posso sair de casa sem a minha tiarinha do Ney Matogrosso.
FILHO: (vão sair filho pára e abraça o pai) Shimbaliê.
PAI: Também amo você, bebê.
No abraço dos 2 Luz sai em fade. Sugestão de músicas pro final Shimbalaiê, ou Roberta Miranda é um misto de ternura, ou Fábio Jr Pai.
FIM
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CC de Larissa Câmara
MANCHETE: DESODORANTES: MAIS PROMESSA QUE EFICÁCIA
Levantamento feito pelo Pro Teste com 12 marcas aponta apenas quatro com resultado acima da média.
O GLOBO – ECONOMIA – DOMINGO 04 DE ABRIL DE 2010
PERSONAGENS
- Repórter - Napinha de Genésio: narigudo, com olfato sensível, empolgado – entre TV Pirata, Galvão Bueno e Márcio Canuto.
- Fedentino Catinga
A ação se passa no local do campeonato brasileiro de maus odores
Repórter: Boa noite! Eu sou Napinha de Genésio, o repórter com o olfato mais sensível da Tv brasileira (ouvimos um barulho de peido. Genésio respira profundamente. Comenta o cheiro do peido) Hum... pum de repolho, com notas de pimenta e azeite. (pausa. empolgado) Estamos no campeonato brasileiro de maus odores, diretamente de Cuuubatão. Para julgar os candidatos ultra-fedidos temos um júri ultra especializado. Os jurados são: Bull shit, químico da Nasa, e um especialista em olfato da Universidade de Waltdisney, Pinóquio. Aplausos para o júri! (pausa) E a noite de hoje promete! Tá tudo podre aqui. (estilo Galvão Bueno quando fala haja coração) Haaaaaaaaja catinga!(pausa) Os concorrentes são fortes, mais forte que eles só o fedor. Vamos aos candidatos do campeonato brasileiro de maus odores: (surge um figurante bem tosco só pra dar pinta) No. 1 – Garganta de Bueiro – prato preferido na infância – cocô. Limpa a bosta do seu cachorro com a língua. Seu pior inimigo é o cepacol. Senhoras e senhores aplausos para Garganta de Bueiro!
(aplausos gravados. o figurante berra e o apresentador tapa o nariz em desespero. Figurante fica marrento num canto)
No. 2 Bodum Big Foot (um figurante bem tosco só pra dar pinta) – o chulé mais ardido do Acre, dedos dos pés em decomposição, seu tênis pode ser usado como arma química. Senhoras e senhores aplausos para Bodum Big Foot (ele retira o tênis, lambe e joga para um mulher da platéia. Que pega o tênis grita e desmaia. O apresentador quase desmaia, e retira do paletó uma máscara como se estivesse recebendo oxigênio)
No. 3 Fedentino Catinga, o pestilento – o cc mais ardido do que morrer queimado, dotado de uma suvaqueira tóxica, o muso do bloco Suvaco de Cristo. Senhoras e senhores aplausos para Fedentino Catinga, o pestilento.
(aplausos gravados. Fedentino faz um joinha pra platéia sem levantar o braço. Os 3 concorrentes ficam lado ao lado aguardando o resultado – climão à la pequena miss sunshine)
Repórter: Quem será o grande vencedor do campeonato brasileiro de maus odores?
Quem será o destruidor de olfatos, o super mega hexa podre? Saberemos dentro de instantes.(pausa) Aplausos para o candidato No. 1 – Garganta de Bueiro (aplausos gravados), Aplausos para o candidato No. 2 Bodum Big Foot (aplausos gravados), Aplausos para o candidato No. 3 Fedentino Catinga, o pestilento (aplausos gravados). (coloca a mão no ponto eletrônico) Senhoras e senhores para conquistar o campeonato brasileiro de maus odores - não basta exalar, tem que feder. Tem que tocar o terror na podridão na moral. Tem que beijar o esgoto e chamar de irmão. (aplausos. Sons de batimentos cardíacos) e o grande vencedor do campeonato brasileiro de maus odores é...
Fedentino Catinga, o pestilento! (aplausos gravados. Fedentino abraça o repórter. Fedentino levanta o braço e o apresentador coloca um máscara anti gás tóxico).
E aí Fedentino é muita emoção?
Pestilento: Pô to até suando frio. Tô feliz com a vitória!
Repórter: Estou sentindo pelo cheiro que você está suando. (pausa) Você se sentiu pressionado por ser favorito, afinal você já era campeão inter-estadual?
Pestilento: Exatamente ganhei o troféu suvacão de ouro. Não tem esse lance de favorito, a pressão é igual pra todo mundo. É aquele negócio “Passarinho que come pedra sabe o cu que tem”.
Repórter: Que bonito! Uma curiosidade dos fãs, quando não está competindo você usa desodorante?
Pestilento: Tá me estranhando, rapaz? Desodorante é coisa de baitola. Desodorante é só promessa, Spray de merda que não serve pra nada. Macho que é macho tem que feder!
Repórter: Com certeza. E as mulheres não reclamam do seu futum, quero dizer cheiro?
Pestilento: Nada. Passo o rodo geral. Falo logo, ou dá pra mim ou te obrigo a lamber o meu suvaco!
Repórter: Que singelo! E pra encerrar, Pestilento, mate a nossa curiosidade, como você conseguiu realizar a façanha de extrair petróleo das próprias axilas?
(Pestilento ri. Levanta os dois braços. Apresentador vai observar as axilas dele sem a máscara e cai morto. Ruído de ambulância).
VOZ OFF: Cascão, vai tomar banho!
Pestilento: Pô, mãe!
FIM
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Ivan Fernandes
| DIRETORA PORNÔ QUER VIRAR DEPUTADA Cineasta de Filmes pornográficos do Reino Unido deixa a carreira de lado para candidatar-se a uma vaga no legislativo FOLHA DE SÃO PAULO – ILUSTRADA – DOMINGO 04 DE ABRIL DE2010 |
TERAPIA DE CASAL
De Ivan Fernandes
Casal de meia-idade no analista.
ELE - Nós estamos passando por problemas.
TERAP - Imagino que seja por isso que me procuraram.
ELE - Mas isso foi depois que procuramos.
TERAP - Que tipo de problemas?
ELE - Os filmes.
TERAP - Não funcionaram?
ELA - Eu adorei os filmes.
ELE - Ela ficou obcecada.
TERAP - Não quebraram a rotina?
ELA - Agora os filmes são a nossa rotina.
TERAP - E qual o problema?
ELE - Ela assiste tudo muito alto. Nossos filhos percebem.
ELA - Mas eles levam as namoradas pro quarto.
ELE - Pois é. E ficam as namoradas lá. Ouvindo. Aquilo.
TERAP - Descreva aquilo.
ELE - Os gritos.
TERAP - Do filme?
ELE - Não! Dela!
ELA - Eu grito melhor do que as namoradas. E mais alto que o filme.
TERAP - Para isso é necessário talento.
ELA - É o que eu digo a ele.
ELE - Os vizinhos já reclamaram. Recebemos uma carta de advertência que foi pregada na portaria.
TERAP - E como vocês se sentiram?
ELA - Eu achei o máximo. Quis emoldurar na parede do nosso quarto. Ele é que não deixou.
ELE - O pior são as roupas.
ELA - Tão bonitas.
ELE - O biquini que ela comprou pra andar pelo clube.
ELA - Igual ao da moça do filme.
TERAP - Qual era o tamanho?
ELE - (mostra) Veja o senhor mesmo.
ELA - Ah, então estava com você?
ELE - Pensa que eu ia deixar você me envergonhar com uma coisa dessas?
ELA - Tá vendo, doutor, ele me tolhe, me reprime, não me deixa explorar minha feminilidade.
TERAP - (entretido com o biquini) Mas a vida sexual de vocês ficou mais ativa?
ELE - Sim.
ELA - Não.
ELE - Não?
TERAP - (sempre entretido com o biquini) E o que falta pra que vocês se sintam... realizados?
ELE - (tirando o biquini do doutor) O que mais eu posso fazer? Até couro com tachinhas já usei.
ELA - Bom... não é sua culpa. É culpa “dele”. O senhor sabe, doutor, o tamanho.
TERAP - Insuficiente.
ELE - Como assim insuficiente? Nós somos casados há trinta anos! Você nunca reclamou!
ELA - Eu não conhecia esses atores dos filmes. Eu nunca tinha visto nada igual.
ELE - Aqueles mastodontes.
ELA - Depois de olhar pra eles, fica difícil me conformar.
ELE - Tá vendo o que seus conselhos fizeram com nosso casamento, doutor?
TERAP - Existem soluções. Próteses, consolos, enchimentos.
ELA- Ele se recusa.
ELE - O senhor não vê como é humilhante pra mim?
ELA - Não é só o tamanho, doutor. O ritmo deles, também, não é brincadeira.
ELE - Eles tomam aqueles remedinhos. Nós vimos no making off.
ELA - Você bem que podia seguir o exemplo.
ELE - Eu sou cardíaco! O remédio sobe a pressão!
ELA - Sem o remédio é que não sobe nada mesmo. Além do mais eu acho muito romântico desafiar o perigo.
TERAP - Acho que temos um ponto aqui. Será que não está faltando um pouco de aventura? Talvez os filmes despertem fantasias.
ELA - É o que eu digo, doutor. Uma noite nós assistimos uma obra-prima. “O melhor de Viviane Popozuda: as melhores cenas de sua carreira. Anal, grupal, lesbianismo, sadomasoquismo, zoofilia, travestis, duplo anal”.
ELE - Duplo anal, doutor. Como é que dois caras aceitam dividir um espaço tão pequeno?
TERAP - Existe todo um treinamento.
ELA - O ponto é que a tal de Viviane tem menos de 20 anos. E já conhece mais da vida que eu em meio século! Eu preciso recuperar o tempo perdido!
TERAP - E você gostaria de submeter seu marido a todas essas fantasias?
ELE - Zoofilia não! Nem pensar!
ELA - Eu propus isso? Propus? Eu falei de uma coisa muito mais simples!
ELE - Um duplo anal!
TERAP - E você aceitou?
ELE - É claro que não! Em mulher minha nenhum marmanjo mete a mão! Nem a mão nem nenhuma outra coisa!
ELA - Seu problema é esse seu moralismo tijucano que não te larga.
ELE - Não vem falar da tijuca não!
TERAP - Para alguns homens pode ser embaraçoso dividir a cama com outro homem.
ELA – Mas eu também propus um trio com mulher, doutor. Só pra quebrar o gelo. Eu, ele e a sobrinha do porteiro.
TERAP - E ele não aceitou?
ELE - Deus me livre. O que é que iam comentar no prédio?
ELA - Olha aí o moralismo tijucano de novo.
TERAP - Foi então que você começou a frequentar os sites da internet?
ELA - Justamente. Eu fiquei maravilhada com a possibilidade de ser observada ao vivo.
TERAP - E o senhor?
ELE - Eu fiquei conhecido como o marido da tarada do 714.
TERAP - Seu site anda muito visitado. Recentemente bateu recorde de acessos. Eu mesmo visitei e fiquei muito impressionado. Deve ser muito lucrativo.
ELA - São mais de dez mil acessos por dia. Foi uma revolução financeira na nossa vida.
ELE - É. Nesse ponto não se pode reclamar.
TERAP - E qual pode ser a razão para tanto sucesso?
ELA - Eu passei a dirigir meus próprios filmes.
TERAP - E o seu marido?
ELA - Alguém tem que segurar a câmera.
ELE - É tudo artístico.
ELA - No início era só coisa leve, eu tirava a roupa em local público, me exibia. Aí uma vez o guarda nos pegou e nos levou pra um lugar deserto. E obrigou meu marido a filmar enquanto ele me... me...
ELE - Ele contracenou com ela.
ELA - E depois nos liberou. Mas disse que o maior sonho dele era ser ator. Era uma fantasia mesmo. E aí eu pensei: igual a ele devem existir tantos. Gente comum, de barriga, careca, pau pequeno, celulite. Não precisa ser modelo sarado. Não precisa ser Viviane Popozuda. E então começamos a abrir participações, a dar chance pra nossos amigos, nosso vizinhos, gente comum. Virou uma postura política, doutor. Contra a ditadura da beleza. E aí virou essa febre toda. Agora todo mundo quer aparecer.
TERAP - Imagino que seja por isso que vieram até aqui com essa câmera.
ELA - Queremos mostrar aquele que deu origem a tudo. Sim, sem o senhor nada disso teria acontecido.
TERAP - Eu fico muito lisonjeado, mas será que vou poder contribuir?
ELA - A idéia é justamente que o senhor contribua. Qual é a sua fantasia?
TERAP - Mas eu nunca participei de uma filmagem antes. Além do mais, não sei se concordo em ser cabo eleitoral.
ELA - Mas será uma campanha revolucionária! Contaremos com o engajamento sexual dos eleitores!
TERAP - Vocês não acham a mensagem muito perigosa?
ELA – Doutor, a idéia de me candidatar não partiu de mim. Surgiu no site. Foi o povo que pediu, doutor. E quando eu for eleita, vou implantar meu projeto nas comunidades e até nas escolas. Todo mundo vai poder fazer os seus filmes. E fazer o papel principal nas próprias fantasias.
TERAP – Parece interessante.
ELA – Junte-se a nós, doutor. Seja mais um. Qual a sua fantasia?
TERAP – Bom, eu... gosto de assistir.
ELE – Assistir?
ELA – Mas meu marido nunca participou!
TERAP – Ainda melhor. A participação dele é fundamental para a conclusão do processo de análise. É o coroamento. Vocês precisam ser um casal unido na frente e atrás das câmeras.
ELE – Mas o que vão dizer no meu trabalho? Além do mais, é uma câmera nova. O senhor vai saber filmar?
TERAP – Isso são meros detalhes. O importante é saber se você aceita contracenar com sua mulher.
ELE – Eu tenho medo. Mas aceito.
TERAP – E você, aceita contracenar com seu marido?
ELA – Apesar de tudo, ele ainda é meu ator preferido.
TERAP – Então, que vocês fiquem juntos até que o “Corta!” os separe. Passa a câmera pra cá. Atenção ao meu comando. É 1, é 2, é 3. Ação!
FIM

